Aproximação entre EUA e Irã é 'pesadelo' para os sauditas

/ REUTERS

ANÁLISE: Angus McDowall , O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2013 | 02h12

Quando o ministro do Exterior da Arábia Saudita, Saud al-Faisal, decidiu pela primeira vez não discursar na Assembleia-Geral das Nações Unidas, a mensagem tácita que passou não podia ser mais clamorosa. Para um país que prefere atuar politicamente fora da arena pública, sua recusa em proferir um discurso que já estava programado foi um aviso inusitadamente direto.

Engajados em uma luta de vida ou morte pelo futuro do Oriente Médio com seu arquirrival Irã, os dirigentes sauditas estão furiosos com o fato de a ONU não adotar nenhuma medida contra a Síria, onde Riad e Teerã apoiam lados opostos no conflito. Estão furiosos também com os EUA, que, na sua opinião, vêm desapontando ao adotarem estratégias frágeis e ingênuas. Temem que o presidente Barack Obama permita que seus inimigos mútuos assumam o controle da situação.

A aliança entre os EUA e a Arábia Saudita não está em vias de rompimento, mas Riad pretende desafiar Washington em defesa dos seus interesses regionais. Os dois países estão em desacordo com relação ao Egito desde a Primavera Árabe e divergem cada vez mais no que diz respeito à Síria. O motivo real da cólera saudita são os clérigos xiitas que pregam a revolução islâmica desde que assumiram o poder em Teerã, há 34 anos.

Já consternados com a relutância americana em apoiar os rebeldes que lutam contra o presidente sírio, Bashar Assad, o mais forte amigo árabe de Teerã, os sauditas ficaram aterrorizados ao ver Washington aproximando-se de Hassan Rohani, o novo presidente iraniano. "O grande pesadelo dos sauditas seria o governo firmar um acordo com o Irã", disse Robert Jordan, ex-embaixador em Riad de 2001 a 2003.

Embora qualquer reaproximação ainda pareça distante, Obama telefonou a Rohani, considerado um líder moderado, durante a Assembleia-Geral da ONU. Os sauditas agora temem que o presidente americano fique tentado a estreitar os laços com Teerã, firmando um acordo para ampliar as inspeções das suas instalações atômicas e, em troca, permitir que os iranianos continuem a dominar países árabes como Líbano, Síria e Iraque.

Os EUA não têm nenhum interesse em se indispor com os sauditas. Mas, à medida que pondera as prioridades, algum atrito será inevitável - fato que hoje preocupa menos Washington, uma vez que a produção doméstica americana de petróleo deixa o país menos dependente de Riad. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.