Aproximando-se dos ditadores

Em vez de investir em parceria com moderados, os EUA têm confiado em ditadores cujas condutas criam mais problemas

FRED HIATT, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2015 | 02h05

Enquanto o presidente Barack Obama tropeça na implementação de sua própria estratégia para o combate ao terrorismo, os EUA estão retornando, quase automaticamente, a uma abordagem anterior e fracassada: confiar em ditadores para que façam o serviço sujo dos americanos.

Os mais recentes - e mais tristes - indícios da capitulação de Obama diante dessa mentalidade antiquada foram os sinais enviados pelo governo dele no sentido de os EUA não mais exigirem a saída de Bashar Assad da Síria, como informaram Michael R. Gordon e Anne Barnard no New York Times.

A exigência de Obama para a saída de Assad nunca foi mais que retórica. Ainda assim, para um presidente que criou a Comissão para a Prevenção de Atrocidades ("O presidente Obama fez da prevenção de atrocidades um dos principais focos da política externa do seu governo", diz um informativo da Casa Branca), deve ser desanimador reconhecer implicitamente que ele não tem nenhuma opção estratégica para a Síria que não envolva Assad.

O presidente sírio é o mais sangrento carniceiro deste jovem século, mas está longe de ser o único exemplo do amor pelos ditadores redescoberto por Washington. O novo ditador do Egito - Abdel-Fattah al-Sissi - assassinou e deteve opositores com uma ousadia com a qual Hosni Mubarak jamais sonhou e o departamento de Estado está ansioso para estabelecer uma parceria com ele.

Obama costumava insistir para que o governo do Bahrein se mostrasse "aberto ao diálogo, que é impossível quando parte da oposição pacífica está na prisão". Agora, enquanto o Bahrein reprime dissidentes pacíficos, os EUA mal prestam atenção.

No Usbequistão, na Ásia Central, Islam Karimov, de 76 anos, preside uma sociedade fechada, com campos de prisão e trabalhos forçados. Mas, imediatamente depois de anunciar que governará por mais cinco anos, os EUA aprovaram o envio de um carregamento de armas ao país, recomendando "certa dose de paciência estratégica para o ritmo das mudanças".

Do Azerbaijão à Arábia Saudita, que Obama visitou na terça feira, os EUA estão se aproximando de ditadores que compartilham entre si algumas características fundamentais. Eles concordam com os EUA e acreditam que o extremismo islâmico deve ser combatido. Mas perseguem também opositores pacíficos - e são particularmente ferozes contra os críticos seculares e liberais. Ao destruir as forças moderadas, eles se apresentam como única alternativa ao fundamentalismo religioso.

Se a parceria com esses tipos proporcionasse uma defesa eficaz contra o terrorismo, talvez valesse a pena superar as reservas morais. A realidade, porém, é que a conduta desses ditadores cria mais problemas no futuro - como o próprio Obama explicou em 2011.

"Sociedades cuja coesão depende do medo e da repressão podem oferecer uma ilusão de estabilidade durante certo tempo, mas são erguidas sobre fissuras que acabarão cedendo, mais cedo ou mais tarde", disse o presidente. "Estratégias de repressão e distração não vão mais funcionar. O status quo é insustentável." Obama prometeu uma guinada histórica na política externa, afastando-se do conforto de duração limitada das alianças com ditadores e apontando para a promoção da "autodeterminação e oportunidade".

"Após décadas aceitando as coisas como são nessa região, temos uma oportunidade de buscar um mundo como ele deveria ser", disse o presidente.

O que houve, afinal? A Primavera Árabe não teve o desfecho esperado - e os EUA começaram a perder a guerra. Uma organização nascida da Al-Qaeda conquistou boa parte do Iraque e da Síria. A Líbia regrediu para a guerra civil. O Iêmen, citado por Obama no ano passado como prova do sucesso de sua estratégia, está numa espiral descendente semelhante. O Taleban está ganhando terreno no Afeganistão. O Boko Haram está criando outro espaço para a barbaridade na Nigéria.

Quando Obama é indagado a respeito desse panorama, ele se esquiva com uma resposta vaga: "Se a implicação é saber se estaríamos menos vulneráveis a ataques terroristas se tivéssemos invadido a Síria, deixarei que especulem a respeito dessa possibilidade e verifiquem se está correta", disse durante entrevista recente com o líder britânico David Cameron.

Mas essa não é a implicação. Os críticos estão dizendo na verdade que Obama deveria implementar a estratégia descrita por ele num discurso em West Point em maio: não uma invasão americana, nem uma terceirização da guerra para ditadores de mão pesada, mas "uma rede de parcerias do Sul da Ásia ao Sahel", com forças moderadas comprometidas com o combate ao extremismo. Ele derrubou o ditador da Líbia, e em seguida, abandonou o país. Tirou todos os conselheiros do Iraque e promete fazer o mesmo no Afeganistão. Enfatiza os ataques com drones, mas sem muitos esforços para construir instituições e engendrar com isso uma cooperação de longo prazo. A ajuda aos moderados na Síria foi prometida repetidas vezes, sem resultados expressivos. E em vez de reunir apoio público em torno daquele que deve ser um esforço prolongado e difícil, Obama diz ao seu eleitorado que "nossos soldados estão voltado para casa".

O que é verdadeiro, por enquanto. Mas, como demonstra o relutante envio de 3 mil soldados ao Iraque, isso deixará de ser verdadeiro se os terroristas continuarem avançando. No longo prazo, uma parceria com o demônio da autocracia do Oriente Médio só vai estimular esse avanço. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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