Apuração dos votos dá sinal ruim para Musharraf no Paquistão

Os resultados preliminares da eleiçãono Paquistão indicam dificuldades para os aliados do presidentePervez Musharraf, segundo dados noticiados pelas TVs locais namadrugada de terça-feira (horário local). A eleição de segunda-feira foi relativamente tranquila,após uma sangrenta campanha que será lembrada pelo assassinatoda ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, num atentado suicida em27 de dezembro. A tendência definitiva só deve ficar clara no decorrer daterça-feira, mas pequenos grupos de oposicionistas jácomemoravam nas ruas de Lahore e Rawalpindi. Um dos maiores golpes à Liga Muçulmana do Paquistão (PML,na sigla em inglês), que dá apoio a Musharraf, ocorreu numdistrito da província do Punjab, onde o presidente do partido,o ex-premiê Chaudhry Shujaat Hussain, foi derrotado por umseguidor de Bhutto, segundo dados extra-oficiais citados pelasTVs. Vários outros dirigentes da PML também parecem ter perdidosuas cadeiras parlamentares. Musharraf disse na segunda-feira que trabalhará com ovencedor, seja quem for, para construir a democracia num paísque desde a independência, há 60 anos, se alterna entre regimescivis e militares. "Esta é a voz da nação. Todos devem aceitar os resultados,inclusive eu mesmo", disse Musharraf na noite de segunda-feirapela TV pública. O Parlamento pode, se for dominado pela oposição, tentarderrubar Musharraf, um general que chegou ao poder porintermédio de um golpe, em 1999, e que foi reeleitoindiretamente no final de 2007. A popularidade dele caiu nos últimos meses por causa demedidas como a demissão de juízes hostis e a imposição de seissemanas de um estado de emergência. Muitos tambémresponsabilizam o governo pelo aumento de preços, pela escassezde alimentos e pela crise energética. Há ainda resistência àaliança incondicional dele com os EUA na luta contra militantesislâmicos. "Se [o governo] perder, sinto que estou ganhando", disse oadvogado Imtiaz Ali, em Peshawar (noroeste), ao conhecer osprimeiros resultados pela TV. "Estou otimista porque a formacomo o povo votou mostra que ele quer a democracia, não aditadura." Mas o medo manteve muitos paquistaneses afastados dasurnas, apesar da presença de 80 mil soldados apoiando apolícia. Só neste ano, mais de 450 pessoas foram mortas emincidentes provocados por militantes islâmicos. Na segunda-feira, porém, os incidentes foram relativamenteescassos. Houve pelo menos 20 mortos, sendo 15 ligados aoPartido do Povo do Paquistão (PPP), hoje dirigido pelo viúvo deBhutto, Asif Ali Zardari. Uma entidade local que monitora o pleito disse que houvepoucas irregularidades. Os partidos de oposição, que vinhamalertando para possíveis fraudes, ainda não se pronunciaram. A Rede pela Eleição Livre e Justa, que reúne 40 ONGs, disseque as estimativas iniciais apontam um comparecimento de 42 porcento do eleitorado, praticamente igualando a votação de 2002. A comoção pela morte de Bhutto deve ajudar o PPP a setornar o maior partido do Parlamento, mas analistas duvidam queele obtenha a maioria, e prevêem que Musharraf tentará forjaruma coalizão entre o PPP e o seu PML. O maior temor de Musharraf seria uma aliança entre o PPP eo outro grande partido da oposição, liderado pelo ex-premiêNawaz Sharif, pois juntos eles poderiam propor o impeachment dopresidente. (Reportagem adicional de Kamran Haider e Jon HemmingemLahore, Faisal Aziz e Sahar Ahmed em Karachi e Simon Gardnerem Larkana)

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