Apuração parcial aponta vitória de Calderón no México

Os mexicanos amanheceram nesta segunda-feira sem saber quem será o sucessor do presidente Vicente Fox, com dois candidatos proclamando-se vencedores antes da nota oficial indicando o vencedor da primeira eleição presidencial que o país realiza na plenitude democrática em anos. Para analistas, a crise poderá minar a legitimidade e a autoridade do candidato que for declarado oficialmente vencedor do pleito de 2 de julho.Com 97,1% dos votos das mais de 130 mil seções eleitorais do país apurados nesta manhã, o candidato conservador Felipe Calderón Hinojosa, do Partido de Ação Nacional (PAN), atualmente no poder, aparecia com 36,38% das intenções de votos, e deve ser eleito o novo presidente mexicano. Já o candidato de esquerda, André Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático (PRD), estava com 35,40%.Com estes números, a possibilidade de Calderón perder é mínima e o futuro mexicano começa a se desenhar mais claramente. Mas a apuração preliminar não valerá, contudo, para determinar o resultado da eleição. Esta terá de esperar por uma nova apuração de todas as urnas nos 300 distritos eleitorais do país, que começará na quarta-feira e se estenderá até o domingo.Embora a vitória de Calderón esteja sendo dada como certa, López Obrador disse que só acatará o resultado se "uma revisão a fundo" da apuração seja feita. Segundo o líder esquerdista da aliança "Pelo bem de todos", qualquer resultado será aceito, mas apenas se for comprovado que a eleição foi "livre" e "limpa", com a revisão de "ata por ata"."Qualquer candidato de qualquer partido tem o direito de revisar os documentos. Isso é o que vamos fazer", alertou o esquerdista, que disse que só haverá impugnações de sua parte se for encontrado um motivo para isso.López Obrador afirmou que "não houve eqüidade" no pleito realizado no domingo, porque "nos meios de comunicação foram vistas muito mais mensagens, muito mais dinheiro do candidato do Partido de Ação Nacional (PAN)", Felipe Calderón.O início das especulações eleitoraisA crise dos candidatos começou a se configurar tão logo terminou a votação, na noite domingo, quando as emissoras de televisão informaram que não tinham como projetar o resultado com base em pesquisas de boca-de-urna, dada a minúscula margem que separava os dois primeiros colocados.Pouco depois das 23 horas locais de domingo, o presidente do Instituto Federal Eleitoral (IFE), Luiz Carlos Ugalde, disse em rede nacional que a apuração dos votos de uma amostragem nacional de mais de 7.600 seções eleitorais não permitia determinar com segurança o vencedor e pediu aos candidatos e aos partidos que se comportassem com responsabilidade, respeitassem os prazos previstos pela lei para a apuração dos votos e evitassem fazer pronunciamentos.Mas os candidatos fizeram exatamente o oposto. Ignorando o apelo de Ugalde e o acordo que havia firmado em junho com todos os demais partidos, pelo qual tinham-se comprometido a respeitar os resultados proclamados pelo IFE, López Obrador apareceu minutos depois na central eleitoral montada no Hotel Marquis Reforma e proclamou vitória.O candidato da esquerda mexicana disse que, de acordo com contagens às quais tivera acesso, ganhara a eleição por pelo menos 500 mil votos, ou mais de um ponto porcentual de vantagem.Em seguida, foi para o Zócalo, a histórica praça central da capital mexicana, onde, embaixo de chuva, comemorou seu suposto triunfo com alguns milhares de adeptos. Num breve discurso, López Obrador criticou duramente o IFE por "não reconhecer a vitória" e anunciou que iniciaria imediatamente consultas com as demais forças políticas para formar o próximo governo.Quinze minutos mais tarde foi a vez de Calderón. Falando a seus correligionários na sede do PAN, ele também se proclamou vencedor, citando os números da apuração preliminar do IFE e projeções feitas por institutos de pesquisas eleitorais com base em pesquisas de boca-de-urna e dados da apuração preliminar do IFE.Os sites de ambos os candidatos fazem alusões a uma vitória não confirmada. No de Calderón há uma foto do candidato em frente a uma multidão animada e a legenda da foto diz: "Felipe Calderón, presidente do México" com letras garrafais. No de Obrador há uma animação com o representante da esquerda subindo em um pódio para depois erguer a faixa presidencial.ProtestosDiante das incertezas acerca de quem será o novo presidente mexicano, as tensões aumentaram em todo o país. Um perito em assuntos mexicanos, George Grayson, disse que se "López Obrador perder por uma diferença entre 4 ou 5 pontos, acredita-se que haverá graves protestos na Cidade do México e (no estado sulino de) Oaxaca".A legislação mexicana não prevê segundo turno. Há forte ansiedade nos meios políticos e empresariais sobre a reação dos mercados de capitais, nesta segunda e nos próximos dias, diante do grave impasse político armado e seus possíveis desdobramentos ao final de uma campanha marcada por ataques pessoais, que polarizou o México e expôs a profunda divisão de classes do país.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.