Aquecimento global salva Bush de críticas sem limites

Enfraquecido mundialmente pelo fracasso de suas políticas para o Iraque e lutando contra uma oposição democrata fortalecida por uma recente vitória eleitoral, o presidente americano, George W. Bush, parece ter impedido que sua presidência caminhasse para um abismo sem volta ao colocar o aquecimento global no topo de sua agenda para 2007. Pelo menos é o que indicam as reações na Ásia e Europa para o discurso sobre o Estado da União, proferido pelo presidente americano na noite de terça-feira, no qual Bush propôs a redução no consumo de gasolina em 20% nos próximos 10 anos. Ainda assim, os esforços do presidente em angariar apoio interno ao endurecimento de seu política para o Iraque, com o envio de mais de 20 mil soldados para a região, parece não ter surtido os efeitos esperados.Embora para muitos o presidente não tenha ido longe o bastante para combater o aquecimento global, vozes importantes classificaram a proposta de endurecer os padrões para economizar derivados do petróleo e a ampliação da produção de combustíveis alternativos como um "bom sinal"."Suas afirmações sobre as mudanças climáticas, seu desejo de reduzir o consumo de energia e o apoio a fontes de energia alternativas serão bem vindas na Europa em geral, e na Alemanha em especial", disse o coordenador alemão para relações com os Estados Unidos, Karsten Voigt. "Isso não muda nosso desacordo sobre (o protocolo de) Kyoto, mas permite que iniciemos uma cooperação sobre métodos concretos contra as mudanças climáticas e fontes alternativas", completou. "O plano tem também um impacto para políticas de segurança porque diminui nossa dependência em relação a países produtores de petróleo."A Alemanha é a atual presidente da União Européia e do G-8 (grupo que conjuga os sete países mais industrializados mais a Rússia).Outros países, como a Dinamarca, insistiram que Bush poderia ter apresentado metas mais claras para a redução no consumo de combustíveis fósseis."Ele poderia ter apresentado objetivos sobre quanto de energia renovável os Estados Unidos necessitam", disse a ministra de Meio Ambiente dinamarquês, Connie HedegaardFalando por meio de um porta-voz, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, viu a iniciativa como alimentadora para futuros progressos para reverter o aquecimento global."O discurso obviamente se enquadra em uma situação em que você tem o clima ideal para a construção de consensos, não apenas nos Estados Unidos, mas internacionalmente, sobre segurança energética e mudanças climáticas - o que o primeiro-ministro vê como os dois lados de uma mesma moeda", disse o porta-voz.IraqueSobre seu plano para ampliar o tamanho das forças americanas no Iraque, entretanto, Bush foi amplamente criticado. No Japão - que foi um dos países que expressou maior apoio à invasão americana - críticos disseram ter visto poucas evidências de que o novo plano irá tirar o país árabe da atual espiral de violência sectária. Em seu discurso desta terça-feira, Bush pediu aos americanos que dêem uma "chance" para que seu plano de enviar mais 21,5 mil soldados para Bagdá possa funcionar.Mesmo o ministro da Defesa japonês - que geralmente expressa apoio a seu principal aliado nas Américas - deu declarações pouco usuais sobre as políticas americanas para o Oriente Médio. "A decisão do presidente Bush de entrar em uma guerra contra o Iraque, baseada em suposições sobre a existência de armas de destruição em massa, foi um erro", disse o ministro Fumio Kyuma.Na Alemanha, o líder do Partido Verde (de oposição), Juergen Trittin, resumiu o discurso como "ignorante quanto ao Iraque e correto sobre o clima".Mas foi em sua própria casa, entretanto, que o presidente ouviu as maiores críticas.A começar pela reação do Partido Democrata, que logo após o discurso apresentou sua resposta ao presidente. "Precisamos de uma nova direção", declarou o senador Jim Webb, escolhido pelos democratas para dar uma resposta a Bush. "A maioria da nação não apóia mais a maneira como esta guerra está sendo travada; nem a maioria de nossos militares", afirmou Webb, um veterano do Vietnã contrário à invasão do Iraque.Mas as criticas vieram também de vozes do próprio partido do presidente, o Republicano. Foi o caso do senador Norm Coleman. "Não posso afirmar qual seria o caminho para o sucesso, mas não é o que o presidente colocou na mesa", afirmou.ImprensaAs críticas também repercutiram em editoriais e artigos da imprensa americana e mundial.O diário britânico Financial Times classificou o discurso de Bush como a "mais pessimista e assertiva defesa de sua nova política para o Iraque".Já entre os jornais americanos, o que prevaleceu foi a imagem de um presidente desgastado e fraco politicamente. Para o Washington Post, "o presidente Bush ofereceu suas garantias usuais na noite passada sobre o estado saudável da União, mas o estado de sua presidência nunca esteve pior"."Ele enfrenta uma maioria democrata em ambas as casas do Congresso e uma opinião pública crescentemente descontente com a guerra no Iraque e desencantada com sua liderança. Quando ele fizer o discurso do Estado da União no ano que vem, as eleições primárias já estarão a caminho e a relevância de Bush estará desbotando", diz o editorial.O New York Times, por sua vez, destacou em sua cobertura o fortalecimento da oposição democrata. Em uma reportagem sobre o clima nos bastidores do discurso, o NYT chama a atenção para as preferências de convidados ilustres - como o prefeito de Washington - em assistir ao pronunciamento presidencial ao lado da nova presidente da Câmara dos Representantes (deputados), a democrata Nancy Pelosi. Para o diário, o fortalecimento de Pelosi é uma lembrança de "como o poder escorreu das mãos do presidente na nova Washington".Em editorial, o diário nova-iorquino também criticou as declarações do presidente acerca de uma tentativa unir os americanos. "Já escutamos isso antes de Bush. No começo de 2001, ele prometeu unir os americanos e em vez disso embarcou em cortes irresponsáveis de impostos, uma agenda social direitista e uma política externa conservadora que rasgou tratados internacionais e alienou até mesmo os mais próximos aliados dos Estados Unidos", diz o texto."Logo após o 11 de Setembro, Bush teve uma segunda chance de unir o país - e o mundo -, mas desperdiçou a chance em uma guerra sem sentido e catastrófica no Iraque", continua o editorial. Porém, com as eleições para o Congresso vencidas pelos democratas no ano passado, segundo o New York Times, o discurso deixou claro "um fato político importante: que as decisões não competem mais somente a ele"."Havia uma grande mudança na noite de ontem: o público. Em vez de sólidas maiorias republicanas seguindo a marcha da Casa Branca, o Congresso é controlado pelos democratas. Será sua tarefa mostrar liderança a uma nação que quer mudanças desesperadamente e espera que seus líderes trabalhem juntos para isso", diz o editorial.

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