Beatriz Bulla/Estadão
Beatriz Bulla/Estadão

Estados Unidos buscam elo entre tornados e aquecimento global

Destruição chega a áreas sem estrutura, onde moradores nunca cogitaram ser vítimas do fenômeno

Beatriz Bulla, enviada especial ao Kentucky, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2021 | 05h00
Atualizado 03 de janeiro de 2022 | 07h31

MAYFIELD, EUA - Rodney Burgess viu pela televisão o aviso de que um tornado passaria por cima dele e de sua casa em poucos minutos. “Pensei: não há nada que eu possa fazer a não ser, provavelmente, morrer”, conta o americano, que não tinha porão para se abrigar na casa que ele mesmo construiu.

Moradores de Mayfield, no Kentucky, nunca imaginaram que estariam no epicentro de um desastre nacional provocado por um evento climático extremo, como a série de tornados que deixou um rastro de 400 quilômetros de destruição no início de dezembro.

Cientistas ainda estudam quantos tornados tocaram o solo no dia 10 e são cautelosos quando questionados sobre a relação desse evento com as mudanças climáticas. O que os  meteorologistas afirmam com segurança é que as condições para que esse tipo de tornado ocorra tendem a ser cada vez mais presentes, à medida que o planeta inteiro esquenta.

Para a formação de um tornado violento, é preciso haver o encontro de ar quente e úmido elevado à atmosfera, com ventos frios que mudem de velocidade e direção. Por isso, é incomum o registro de tornados nesta época do ano, tipicamente fria nesta região dos Estados Unidos.

“É seguro dizer que os tipos de clima que produzem tornados, provavelmente, se tornarão mais comuns nas temporadas de inverno na América do Norte. E isso se deve ao fato de que todo o sistema climático está esquentando. Ainda não podemos dizer que esse evento, em particular, foi em razão das mudanças climáticas. Mas podemos dizer que, no futuro, teremos mais casos desse tipo”, afirma Stephen Nesbitt, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de Illinois.

A região atingida pela última série de tornados reúne os fatores explosivos para a catástrofe: pobreza, falta de boa infraestrutura de proteção contra desastres, maior densidade populacional do que outras áreas do Meio-oeste e a percepção, por parte da população, de que está a salvo desse tipo de problema. “Diferentes partes do país têm uma resiliência diferente a condições climáticas perigosas e, nesta parte dos EUA, o aspecto socioeconômico torna tudo mais desafiador”, afirma Nesbitt.

Nunca passou pela cabeça de Burgess que ele deveria se preocupar com uma construção que aguentasse aquele momento. E, minutos antes da catástrofe que destruiu sua casa, também não acreditava que um tornado fosse mesmo atingir sua cidade, Mayfield, a despeito dos alertas. “Fiquei imaginando que, em algum momento, os tornados desviariam para o norte, que é onde costuma haver esse tipo de coisa”, diz.

Atendendo aos apelos da mulher, feitos por mensagem de texto no celular, Burgess pegou seu jipe e dirigiu o mais longe que conseguiu – estima que foram menos de cinco quilômetros. Por alguns minutos, viu incrédulo, da rodovia que dá acesso a sua rua, a própria casa e as de toda sua vizinhança irem abaixo, enquanto seu carro balançava com o vento.

“No sudeste dos EUA lidamos com um problema relacionado ao setor de moradias prémoldadas e casas móveis. São muito mais comuns nessas regiões. Há problemas na forma como essas casas pré-fabricadas são ancoradas ao solo. A probabilidade de morrer em uma casa pré-fabricada, quando esses tornados passam, é muito maior”, afirma Stephen Strader, geógrafo especializado em desastres, que pesquisa vulnerabilidades na moradia e sua relação com eventos climáticos extremos.

As casas pré-fabricadas, típicas construções americanas montadas sobre a grama, são particularmente as mais afetadas em desastres da história recente dos EUA, como o furacão Irma, que atingiu a Flórida, em 2017.

Destruição do tornado

Segundo Strader, cidades comumente afetadas por furacões, como a costa da Flórida, por exemplo, passaram a ter leis mais firmes para construção e ancoragem das casas no solo. Locais mais pobres, onde esses fenômenos são considerados atípicos, não têm o mesmo grau de preparação.

Por isso, os alertas sobre o tornado não são suficientes, ainda que funcionem bem, como ocorreu no Kentucky – a população foi alertada com 20 minutos de antecedência. Mesmo avisadas, as pessoas não têm onde se abrigar. “Os mais pobres vivem em lares inseguros”, afirma Strader. 

As casas na cidade de 10 mil habitantes no sudeste do Kentucky valem menos da metade da média do preço nacional. Uma residência americana custa, em média, US$ 217 mil. Em Mayfield, vale US$ 100 mil. A renda também é mais baixa e a pobreza, maior. Os EUA têm 11,44% da população vivendo na pobreza, enquanto Mayfield tem 34,7% dos habitantes nessa situação.

Burgess tentou chegar o mais próximo possível de sua casa assim que viu o tornado passar. A rua pacata parecia um lixão, com pilhas e pilhas de escombros espalhadas entre galhos e topos de árvores no chão. Com o farol alto do carro ligado, avistou uma das crianças da casa vizinha. “O Daniel, o filho deles de 9 anos, estava andando sem rumo. Ele me ajudou a achar seus pais”, conta. O casal tinha sido arrastado pelo tornado cerca de 200 metros para trás. Toda a família tentou se proteger dentro da banheira da casa, que também não tinha porão. Nenhuma parede ficou em pé. “É um milagre não terem morrido”, diz Burgess.

Do outro lado da rodovia, a fábrica de velas da cidade virou o símbolo da tragédia. Cerca de 110 trabalhadores estavam no local no momento que o tornado passou por Mayfield, às 21h30. Oito deles morreram. “Ele estava tentando concentrar as pessoas no local onde tentavam se abrigar, dentro da fábrica. Já tinha levado alguns, quando morreu com o teto desabando em cima deles”, conta Justin Howard, primo de uma das vítimas.

Funcionários acusam supervisores de ameaçarem os trabalhadores que pediram para ir embora em razão do tornado. A empresa, conhecida na cidade como “Las Velas” por trabalhadores de origem latina, pagava US$ 12,50 por hora de trabalho. Os empregados decidiram processar a fábrica.

Os tornados são eventos comuns nos EUA. Em 2020, foram 1.057 casos. Mas o número de mortos no ano passado inteiro (76) ficou abaixo das fatalidades que ocorreram só no Kentucky (78 mortes) há duas semanas.

“Nunca tivemos algo assim, nunca”, diz Kim Mowres, moradora da cidade há 50 anos. Há indicações de que o “beco do tornado”, a região americana que concentra tradicionalmente este fenômeno no país, tem se movido para o leste de forma sutil nos últimos anos. 

Tradicionalmente, a região abarca Oklahoma, Kansas, Arkansas, Iowa, Missouri, norte da Louisiana, nordeste do Texas e alguns trechos de outros Estados. Quase tudo no centro de Mayfield parou no chão: a maior parte dos prédios, semáforos, fiação epostes. Sem energia, sem sinal de telefone e sem casa, moradores fazem filas para buscar doações de roupas, comida e itens básicos de higiene.

Os moradores perderam não só as casas, amigos e parentes, mas locais de trabalho, igrejas, escolas e memória. “É uma cidade pequena. Todo mundo se conhece. Quase todo mundo conhece alguém que morreu na fábrica. Tudo se foi. Nossa história se foi. Você andou no centro? Não é possível mais apontarmos um lugar e dizer: ‘Eu vinha aqui quando criança’. Já somos uma cidade pobre e isso só nos machuca mais”, afirmou Kim, enquanto trabalhava como voluntária na distribuição de mantimentos.

Resgate das vítimas.

A chuva não deu trégua nos dias após os tornados devastarem Mayfield. Quase uma semana depois, uma tempestade que subia do Texas atrapalhou os trabalhos das vítimas, que tentavam salvar algo que restou de suas casas no meio dos escombros.

O noticiário local acompanhava a formação de outro tornado, desta vez ao norte, que atingiria Iowa. Burgess, assim como outros moradores, não se importava com a chuva torrencial e, pisando em uma pilha de madeiras, troncos de árvore e pertences pessoais, tentava encontrar os presentes de Natal que comprou para os cinco filhos. “Muitas vezes, eu me pergunto por quê”, disse, antes de ir embora de mãos vazias. 

 

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