Rodrigo Cavalheiro/AE
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'Aqui há um capitalismo de Estado', diz filósofo e economista cubano

Para Sautié, é preciso romper com o conceito de assalariado que deve apenas cumprir ordens do regime

Entrevista com

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial a Havana, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h03

HAVANA - Na casa em que vive com a mulher, na Rua Animas, centro de Havana, o filósofo e economista Félix Sautié Mederos recebe com desconfiança inicial quem quer saber "o que está ocorrendo em Cuba". Fundador do Partido Comunista Cubano, conhece a engrenagem e a mentalidade do partido. Ele é um militante incômodo e um intelectual respeitado o suficiente para dar sua opinião entre os camaradas. Nesta entrevista, ele credita a nova leva repressiva à falta de liberdade de expressão "que tem de acabar".

 

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'Estado': As reformas econômicas de Raúl Castro estão produzindo mudanças na prática?

Félix Sautié Mederos: Antes de mais nada, é preciso ver essa questão com uma grande dose de realismo político e pés no chão. Uma coisa é a realidade que desejamos e outras, bem diferentes, são os planos que nos querem impor e a realidade de fato. Tudo caminha em ritmo muito lento e as reformas idealizadas nas "diretrizes" aprovadas pelo 6.º Congresso do Partido Comunista de Cuba não são suficientes para enfrentar a situação econômica, política e social que atravessando.

 

Faltam muitos aspectos que não foram abordados; como a necessidade de estabelecer um controle dos trabalhadores nas empresas e entidades estatais. Tampouco foram apresentadas medidas para garantir uma participação da população no desenvolvimento econômico. Mas é possível observar algumas mudanças. É preciso apostar nelas, porque o mais importante é romper o imobilismo e derrotar as forças burocráticas, que inibem o avanço.

'Estado': Que sistema econômico existe hoje em Cuba?

Félix Sautié Mederos: A centralização excessiva em Cuba há muitos anos e o estabelecimento de um pensamento único derivaram das tentativas de estabelecer um sistema socialista num verdadeiro capitalismo de Estado. Enquanto se puser em prática a concepção do trabalhador assalariado que não decide sobre as projeções econômicas e não participa da distribuição dos resultados econômicos, o que existirá será um capitalismo de Estado.

 

Para que haja o socialismo, é imprescindível implementar os conceitos mais amplos de democratização e socialização, estabelecendo o conceito de trabalhador associado imaginado por Karl Marx e não o de um assalariado que deve apenas cumprir as orientações de cima, conceito próprio do stalinismo. E aqui está a diferença essencial, que determinou o nascimento de uma corrente de pensamento segundo a qual Cuba precisa de um socialismo participativo e democrático, mais humano. É por isso que muitos revolucionários estão lutando neste momento, e me incluo entre eles.

'Estado': Por que o sr. acha que não houve renovação de líderes do PC?

Félix Sautié Mederos: Isso tem a ver com as concepções esquemáticas de um continuismo político caracterizado por um conceito messiânico, determinado pelo ego que personificava uma geração histórica que negou durante anos a participação das novas gerações na direção da sociedade. Trata-se de uma contradição com a própria essência do movimento revolucionário dos jovens dos anos 50, que derrubou a tirania de Fulgencio Batista, do qual, modestamente, sou um dos participantes. Por isso, não estou livre desse problema. Escrevi e afirmei que fui ao mesmo tempo algoz e vítima. No entanto, desde o fim dos anos 60, quando fui diretor da Juventud Rebelde, defendi a necessidade de canalizar a crítica popular e propiciar o diálogo sobre os problemas sociopolíticos cubanos.

 

Em 1967, publiquei dois artigos intitulados "No bando dos inconformistas" e "Resposta aos que nos criticam", nos quais defendi a renovação no processo revolucionário. Pouco depois, encontraram motivos para substituir-me e punir-me. Hoje, percebi como muitos companheiros de minha geração foram sendo substituídos e até apagados da memória histórica. Isso foi se repetindo com as gerações que foram surgindo até chegarmos à situação atual, em que não há substitutos para os que se mantêm em seus cargos dobrando a curva dos 75 e 80 anos de idade, o que é preocupante.

'Estado': Qual é a saída para a corrupção geral que se vê hoje em Cuba?

Félix Sautié Mederos: Esse é um problema básico de um sistema errôneo no qual a pessoa não é um sujeito econômico que pode se sustentar por si mesmo, mas um objeto que participa e determina muito pouco. A solução é um rearmamento moral da sociedade cubana em seu conjunto porque foram jogados por terra muitos dos valores estabelecidos desde tempos imemoriais em Cuba, tendo havido um enfraquecimento do papel da família, que se pretendeu substituir pela educação fornecida pelo Estado.

 

Além da centralização de um pensamento único capaz de decidir tudo, criaram uma situação caótica na qual se desenvolveram desvios próprios de uma economia subterrânea de subsistência propiciadora. Para solucioná-lo, são necessárias reformas e mudanças econômicas, as liberdades de expressão, crítica, associação e o mais estrito respeito a todos os direitos humanos.

'Estado': Como o sr. vê o fato de terem libertado "os 75" e já não se falar dos demais presos políticos? A Igreja Católica deveria intermediar a libertação deles também?

Félix Sautié Mederos: Isso dependerá de se conseguir uma mudança total de concepções de governabilidade com o mais pleno respeito às opiniões diferentes, aos direitos inalienáveis das pessoas, e de que se faça o mais amplo processo de reencontro, reconciliação e perdão com justiça entre todos os cubanos.

 

A Igreja Católica é a casa de todos. Dos que estão a favor e dos que estão contra. Portanto, ela tem um papel de mediadora por excelência.

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