Árabes céticos com motivos de Bush para a guerra

A experiência dos Estados Unidos como construtor da democracia parece algo antigo e distante para os árabes, muitos dos quais estão mais propensos a pensar em Israel e Arábia Saudita do que em Japão e Alemanha, quando consideram o histórico de política externa de Washington. Mohamed el-Sayed Said, um analista político egípcio, disse hoje que foi levado a rir diante da "idéia de lançar uma guerra para dar início a uma democracia" que o presidente George W. Bush apresentou num discurso sobre o Iraque.O ministro do Exterior da Jordânia, Marwan Mouasher, foi mais diplomático. "Sempre mantivemos a posição de que a democracia na região é um assunto cultivado por nós mesmos".Nem todos os árabes estão prontos para se afastarem de Bush. O comentarista político kuwaitiano Fouad al-Hashem acredita que seu país tem se tornado lentamente mais democrático devido à influência de Washington, desde que o reino foi libertado da ocupação iraquiana por uma coalizão liderada pelos EUA em 1991.Depois de viver sob uma ditadura brutal por décadas, os iraquianos tendem a fazer ainda mais diante de uma chance de democracia, considerou al-Hashem."Eles não vão deixar que isso escape pelos seus dedos, porque eles vão lembrar, eles não irão querer a volta da ditadura", opinou.Os Estados Unidos, avaliou o ativista dos direitos civis egípcio Negad Borali, estão agora determinados a defender a democracia porque os atentados de 11 de setembro ensinaram que ditaduras são campo fértil para o extremismo."Os americanos perceberam que seus interesses no Oriente Médio não estarão seguros sem a democracia na região", disse Borai. Ele acrescentou que Bush deve honrar sua promessa de promover reformas no Iraque e no resto da região.Mas outros são mais céticos em relação à motivação de Bush."Quem pediu para ele falar em nosso nome? Se precisarmos de nos democratizar, nós falaremos por nós mesmos", afirmou Safeya Mohammed, um estudante de 20 anos da Universidade Al-Azhar, que participou de uma manifestação antiguerra de mais de 100.000 pessoas no principal estádio do Cairo."A guerra só leva à destruição e nunca será uma ponte para a democracia", disse outro manifestante, o clérigo Mohammed Mahmoud Seyam.Em seu discurso na noite de quarta-feira, Bush explicou que seu objetivo não é apenas derrubar um líder que ele acusa de estar escondendo armas de destruição em massa. É também, acrescentou, inspirar mudanças na região ao substituir o regime de Saddam Hussein por uma ordem democrática. Ele traçou um paralelo com a transformação pós-Segunda Guerra do Japão e da Alemanha.O analista político Said não nega que o mundo árabe precisa de transformação, mas ele destacou que os EUA são aliados próximos de muitos dos maus governos da região.Os reformistas no Oriente Médio, afirmou, não tendem a buscar ajuda de um governo dos Estados Unidos visto como ajudando Israel a reprimir os palestinos.A associação aos Estados Unidos parece ter dado má fama aos valores democráticos e liberais na região. No ano passado, por exemplo, alguns comentaristas acusaram intelectuais árabes de estarem defendendo a agenda de Washington quando eles disseram, num estudo patrocinado pela ONU, que sua região precisava de mais democracia e liberdade para se desenvolver."Você tem a impressão de que as pessoas odeiam a democracia, odeiam os Estados Unidos, não pensam que os Estados Unidos possam trazer democracia," relatou Borai, o ativista dos direitos civis.Entretanto, um Iraque democrático terá um grande impacto na região, admitiu."Se o governo americano conseguir construir um novo Iraque, isso traria uma verdadeira mudança para a região", disse.Em seu discurso, Bush mencionou o estudo dos intelectuais árabes e a proposta saudita de reformas políticas, que deve ser apresentada numa cúpula árabe este fim de semana, como "sinais esperançosos do desejo de liberdade no Oriente Médio".O chanceler jordaniano Mousaher disse que os árabes estão caminhando em direção à democracia por conta própria. Ele destacou que seu país, uma monarquia, está dando "passos importantes nesse sentido".Hoje, na capital jordaniana, o primeiro-ministro Ali Abul-Ragheb anunciou que eleições nacionais serão realizadas em 17 de junho, dois anos depois de o rei Abdullah II ter dissolvido o último parlamento. As eleições vinham sendo repetidamente adiadas em meio a especulações de que o governo temia que políticos conservadores muçulmanos conseguissem boas votações, ou que a campanha precipitasse distúrbios antiamericanos e antiisraelenses.

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