Árabes da Europa querem retornar

Mudanças em suas terras natais os estimulam a voltar, apesar de gostarem da vida que levam em solo europeu

TIMOTHY GARTON ASH, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Pensei em ver com meus próprios olhos o impacto dessas revoluções no bairro árabe. Estou me referindo ao bairro árabe da Europa. Acabo de voltar à Calle de Tribulete, em Madri. Ao longo dessa rua, com seus bares sujos e salões de acesso à internet e telefônicos, por meio dos quais os imigrantes se comunicam com suas agitadas pátrias, podemos encontrar marroquinos, tunisianos, argelinos - e, numa pequena loja empoeirada chamada de Casa do Faraó, um jovem egípcio chamado Safy. Ele chegou à Espanha há três anos, do porto mediterrâneo de Rachid, ou Roseta, onde os Exércitos de Napoleão encontraram a famosa Pedra de Roseta.

E Safy, Mokhtar e Muhammad (muitos Muhammads) me dizem que finalmente têm esperança na terra natal. E, se tais esperanças se concretizarem, se aquilo que um trabalhador imigrante argelino chamou de "governo mafioso" for dissolvido, se existir uma perspectiva real de emprego, moradia e, é claro, mais liberdade, eles voltarão para casa. Estão na Espanha para uma vida melhor. Há muitos aspectos da vida espanhola que eles gostam, apesar de dizerem que o preconceito contra os muçulmanos piorou depois dos atentados de 2004, em Madri. Mas, se houver oportunidade, eles voltarão. Por enquanto, o que existe é "como se diz - l"espoir (o espírito)?".

Não estamos falando de um bairro árabe europeu qualquer - muito embora seja possível encontrar um espaço semelhante em cada grande cidade da Europa Ocidental. Esse é, afinal, o bairro de onde vieram alguns dos envolvidos nos atentados de Madri. Eles costumavam se reunir no La Alhambra, um calmo café e restaurante. Jamal Zougam trabalhava em um desses postos telefônicos tão usados pelos imigrantes para se comunicar com a família. Ele preparou os celulares que detonaram as bombas responsáveis pela morte de tantos usuários do transporte público espanhol na estação de Atocha. Quando estive aqui seis anos atrás, conheci jovens que tinham a foto de Osama bin Laden em seus celulares. Eles falaram do medo que sentiam, de sua raiva diante da guerra no Iraque, e do desespero.

Hoje esses celulares e postos telefônicos mostram um clima bem diferente. Na Casa do Faraó, Safy e Ibrahim comemoram a queda de Hosni Mubarak. E o homem sentado atrás do balcão no La Alhambra, um pensativo marroquino que já estudou história medieval, fala cautelosamente sobre possíveis mudanças positivas no reino em que nasceu. Em eleições livres, diz ele, os muçulmanos marroquinos poderiam obter resultados expressivos, mas eles são muçulmanos pacíficos, que respeitam a democracia e obedecem às leis, como os da Turquia, "ou quem sabe ainda mais moderados".

Bem, como afirmou Heródoto, meu trabalho é registrar o que diz o povo - mas isso não significa que eu esteja inclinado a acreditar em tudo que ouço. Eu jamais superdimensionaria a importância de um contato com a opinião popular num bairro árabe. Somente um tolo deixaria de reconhecer que o momento atual é de perigo, tanto quanto de oportunidade. Para Tunísia e Egito, o caminho do avanço é muito menos claro do que no caso do Leste Europeu. Para os países árabes não há no fim do túnel da garantia segura e reconfortante da participação na União Europeia.

No longo prazo, as opiniões que ouvi na Calle de Tribulete podem significar que alguns imigrantes talvez voltem aos seus países de origem. No momento, há mais de 5 mil árabes na ilha italiana de Lampedusa, à qual chegaram de barco vindos, em sua maioria, da Tunísia. "A revolução não alterou nada", dizem eles ao Le Monde - mostrando querer que a Europa lhes dê emprego.

Na confusão de uma nova semiliberdade, algumas pragas antigas devem ressurgir do esquecimento relativo. Vi uma amostra disso num jovem marroquino sentado num ponto de ônibus daqui. Sem nenhum pretexto em particular, ele começou a me dizer que "todos os problemas do mundo são obra dos judeus". Explicou que o Profeta Maomé tinha um problema com eles e, desde então, os judeus se dedicaram a prejudicar os muçulmanos. O jovem frequenta uma mesquita cujo imã vem da Arábia Saudita. Adivinhou?

A tentativa de conter as manifestações de descontentamento da juventude árabe por meio do auxílio prestado às corruptas autocracias árabes - entre elas a da Arábia Saudita, dada a financiar imãs wahabitas em todo o mundo -, como fizeram por tantos anos Europa e EUA, corresponde apenas a trocar uma grande encrenca imediata por um problema ainda pior no futuro. Devemos agora aproveitar a chance, correr o risco e nos dedicar ao máximo a descobrir uma maneira - com os meios limitados de que dispomos - de ajudar os árabes famintos por liberdade a chegar ao melhor resultado possível.

Mas como? Esta é a pergunta que eu esperava responder na Espanha. Pois nenhum país europeu está mais próximo do mundo árabe do que ela: no ponto mais próximo do Marrocos são apenas 13km de distância pelo Mediterrâneo. É aqui que Europa e Norte da África se encontram.

O que tenho ouvido dos analistas e governantes espanhóis até o momento é desapontador. É verdade que o país conta com um profundo conhecimento do Magreb - e do Marrocos em especial -, mas suas políticas são limitadas pelo medo de uma torrente migratória vinda desses estreitos (que o governo marroquino ajuda a conter) e também do terrorismo islâmico, além das drogas e do crime - por preocupações com a segurança de enclaves espanhóis no norte da África, como Ceuta e Mellila, e pelos laços de proximidade com a monarquia marroquina.

Se as manifestações marcadas para domingo no Marrocos evoluírem para algo maior, os espanhóis realmente não sabem como vão reagir.

Se a Espanha não tem estratégia, a França apresenta algo ainda pior: uma estratégia ruim. Na busca de um suposto realismo míope, as elites políticas e econômicas francesas se envolveram muito com os líderes norte-africanos. E como o WikiLeaks ajudou a trazer ao conhecimento do público, os líderes árabes do norte da África compunham uma coleção de cleptocratas. O presidente Nicolas Sarkozy também enredou a Europa numa organização totalmente inútil chamada União pelo Mediterrâneo. Seu copresidente fundador, junto com o próprio Sarkozy, era ninguém menos do que Hosni Mubarak. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITOR

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