Árabes pressionam por reformas. Nos países vizinhos

Cenário: Gustavo Chacra

O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h04

Ao mesmo tempo em que pressionam a Síria e o Iêmen a adotar reformas políticas, alguns integrantes da Liga Árabe seguem reprimindo seus opositores e, em outros casos, relutam em implementar reformas.

Os Estados Unidos estudam suspender a venda de armamentos para o Bahrein no valor de US$ 53 milhões, caso se comprove que a monarquia Al-Khalifa, com o apoio da Arábia Saudita, violou os direitos humanos na violenta repressão aos opositores no primeiro semestre.

"Existem dois pesos e duas medidas em relação à forma como a repressão no Bahrein tem sido tratada. Pedimos aos Estados Unidos para serem mais duros com eles (os dois países são aliados). Mas existe uma diferença do Bahrein em relação à Síria. Eles criaram uma comissão independente para investigar os acontecimentos e os sírios, não", disse ao Estado Peggy Hicks, diretora global do Human Rights Watch.

Outros integrantes da Liga Árabe, como a Jordânia e a Argélia, também têm reprimido os protestos. O rei Abdullah trocou o seu premiê mais uma vez, mas opositores consideram suas reformas cosméticas. Os argelinos, com o dinheiro do petróleo, têm superado a instabilidade "por meio de subsídios que reduziram os preços e elevaram os salários", segundo Hani Sabra, da agência de risco político Eurasia.

Além disso, as forças de segurança da Argélia e da Jordânia são mais bem treinadas do que as da Síria e, desde o início dos protestos, apesar de prenderem opositores e reprimirem manifestantes, evitaram ações sangrentas como as das forças de segurança do regime de Damasco. Na Síria, segundo a Organização das Nações Unidas, ao menos 3 mil pessoas foram mortas pelas forças de segurança de Bashar Assad desde a eclosão dos protestos há sete meses. O regime nega e diz que mais de mil de seus soldados e policiais morreram em ataques de grupos armados da oposição, muitas vezes compostos por desertores.

O Marrocos, entre as monarquias árabes, foi o único país que, até este momento, realizou reformas na direção da democracia. A Arábia Saudita, que ainda mantém um dos regimes mais fechados do mundo, deve permitir nos próximos anos o voto de mulheres em eleições locais - não existe votação nacional.

Historicamente, apenas o Líbano realizava eleições relativamente livres na região, apesar das leis sectárias que obrigam o Parlamento a ser metade cristão e metade muçulmano e concedem aos cristãos maronitas a presidência e aos sunitas o cargo de primeiro-ministro.

A eleição na Tunísia no mês passado foi um divisor de águas. "Ao realizar eleições livres apenas dez meses depois da queda de seu ditador, a Tunísia serve de exemplo para o restante da região", afirmou Marwan Muasher, do Carnegie Endowment for International Peace, em análise publicada ontem. Entretanto, a vitória do Partido Ennahda, formado por islâmicos moderados da Tunísia, despertou preocupação entre os grupos laicos e provocou protestos. Na sexta-feira, tropas dispararam para o ar para dispersar uma multidão que tentava atacar órgãos do governo em Sidi Bouzid, onde os levantes da primavera árabe começaram.

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