Árabes vêem com ceticismo novo governo do Iraque

Apesar de oficialmente saudarem o novo governo do Iraque, líderes árabes têm deixado claro que estão profundamente céticos com o caminho assumido pelo país. Os tímidos elogios do Egito, Jordânia e Arábia Saudita têm sido acompanhados de uma profunda preocupação com a influência do Irã, temores de uma guerra civil no Iraque e um desgosto subjacente em ver muçulmanos xiitas controlando uma das maiores nações do Oriente Médio."Agora temos um governo, e, como tenho dito, apoiamos ele", afirmou o líder da Liga Árabe, Amr Moussa, depois que o governo iraquiano foi empossado no começo da semana. "Mas insisto, como vamos fazer para ajudar o Iraque a voltar a ser um país, uma sociedade diversificada vivendo junta em união? Isto foi destruído".O ministro do Exterior da Arábia Saudita ecoou essas palavras, afirmando que ao mesmo tempo em que seu país saúda o novo governo iraquiano, "espera que ele seja capaz de parar essa violência e caos". O emir do Kuwait acrescentou que os iraquianos deveriam agora trabalhar para "se unirem e usarem suas capacidades para construírem o Iraque".O apoio dos países árabes ao Iraque é tido como crucial porque o país necessita de ajuda tanto financeira quanto diplomática de seus vizinhos a fim de consolidar seu próprio governo. Vizinhos também desempenham um papel-chave para garantir que combatentes estrangeiros não penetrem no Iraque, e que insurgentes iraquianos não recebam ajuda de redes externas.Influência iranianaO ceticismo em relação ao novo governo do Iraque é fruto em parte do grande temor no qual vivem líderes árabes - que na grande maioria são muçulmanos sunitas - com o exemplo estabelecido pela teocracia xiita que governa o vizinho Irã desde a derrubada do xá 27 anos atrás.Eles temem que o Irã esteja agora exercendo uma influência excessiva sobre a nova elite governista xiita do Iraque e que a crescente tensão xiita-sunita no Iraque venha a transbordar para toda a região. A maioria dos países árabe é governada por sunitas, mas alguns têm uma considerável minoria xiita.Três dos líderes mais moderados da região - aliados-chave dos Estados Unidos - chegaram a expressar publicamente sua ansiedade, um raro evento entre líderes que normalmente expõe suas posições de maneira oblíqua.O rei da Jordânia, Abdullah II, advertiu no ano passado que o Irã quer criar "um crescente xiita" que iria comprometer o equilíbrio de poder na região, e o chanceler saudita fez declarações no mesmo sentido.O presidente egípcio, Hosni Mubarak, por seu lado, causou irritação entre xiitas de toda a região ao afirmar no começo do ano que os xiitas iraquianos eram mais leais ao Irã do que a seu próprio país.Tais comentários criaram asperezas nas relações entre o Iraque e alguns de seus vizinhos árabes - que seqüestros de diplomatas árabes dentro do Iraque apenas acentuaram.Países árabes acusam o Iraque de não garantir a segurança e proteger seu pessoal, enquanto os iraquianos devolvem dizendo que seus vizinhos árabes não fazem o suficiente para ajudá-los - seja diplomaticamente ou com concretas ofertas financeiras.Na esteira da posse do novo governo iraquiano, o ministro do Exterior do Egito garantiu que seu país "não postergará" sua ajuda ao Iraque, sem entretanto especificar que tipo de ajuda.Sunitas e xiitas Muitos evitaram emitir uma opinião, dizendo que vão aguardar para ver se o primeiro-ministro xiita agora no poder pode ganhar a confiança suficiente de sunitas e curdos para preencher três importantes ministérios de segurança ainda vagos.Esses ministérios são de particular atenção para os vizinhos sunitas do Iraque porque pelo menos um - o do Interior - é acusado de estar infiltrado por milícias lideradas por clérigos xiitas com laços estreitos com o Irã.O ministério e as milícias são acusados pelos sunitas - tanto dentro quanto fora do Iraque - de promoverem uma onda de assassinatos sectários contra sunitas.Militantes sunitas da Al-Qaeda no Iraque também têm promovido campanhas sangrentas contra os xiitas."As eleições foram realizadas em dezembro e três dos mais importantes ministérios ainda estão vagos", destacou Jihad Khazen, um proeminente colunista do diário al-Hayat, que é publicado em Londres em língua árabe. Ele disse estar aguardando o preenchimento dos cargos para emitir uma opinião sobre o novo governo.O diário saudita al-Watan pareceu condensar da melhor forma o ceticismo árabe. "Um parto difícil não significa que o recém-nascido irá sobreviver", escreveu o jornal num editorial. "E não significa que ele irá morrer imediatamente".

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