AP Photo/Hasan Jamali, File
AP Photo/Hasan Jamali, File

Mulheres da Arábia Saudita vão poder dirigir, mas só em junho

Reino conservador levanta símbolo da opressão às mulheres por pressão de príncipe herdeiro

O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2017 | 16h45

RIAD - Um dos principais símbolos da segregação e da opressão às mulheres na ultraconservadora Arábia Saudita vai acabar. As sauditas poderão dirigir um automóvel, mas não sem um “período de adaptação”. A liberação só ocorrerá a partir de junho de 2018.

A mudança foi anunciada nesta terça-feira pela emissora estatal saudita e, simultaneamente, em um evento para a imprensa nos EUA, que saudaram a decisão. O reino saudita, local de nascimento do Islã e regido segundo a lei islâmica (sharia) era o único país que não permitia que as mulheres dirigissem.

Ao longo dos anos, funcionários do governo e clérigos deram inúmeras explicações para tentar justificar a proibição. Alguns diziam que era inapropriado para a cultura local que as mulheres dirigissem, alegando que os motoristas não saberiam como se comportar em relação às mulheres em carros próximos. Outros diziam que permitir que mulheres ao volante poderia levar à promiscuidade e ao colapso da família tradicional. Em um dos argumentos mais absurdos, um clérigo chegou a afirmar – sem nenhuma comprovação – que dirigir causaria danos aos ovários.

Grupos de direitos humanos fizeram uma longa campanha para que o veto fosse revogado e, nos últimos anos, várias mulheres foram presas e punidas por desafiar a proibição.

A ascensão do príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman, de 32 anos, e seu desejo de renovar a economia e a sociedade do país, contribuíram para a tomada da decisão. O príncipe acredita que, além de melhorar a imagem do país no exterior, permitir que as mulheres dirijam poderá ajudar a economia saudita – atualmente, para trabalhar, elas dependem da carona de algum membro masculino da família.

Para viabilizar a medida, o rei saudita, Salman bin Abdelaziz, criou um comitê formado pelos Ministérios do Interior, Fazenda, Trabalho e Desenvolvimento Social, para que apresentem suas recomendações sobre o tema em um prazo de 30 dias.

As sauditas estão submetidas à tutela de um homem da família – geralmente o pai, o marido ou o irmão – para poder viajar ou estudar e não está claro como a permissão para dirigir estará relacionada a outras restrições, como a de que elas só podem sair acompanhadas de um “guardião”.

Como parte de um ambicioso plano de reformas econômicas e sociais, o país parece estar pronto para suavizar algumas dessas restrições, mas gradualmente. As mulheres já garantiram o direito ao voto e, em 2015, puderam participar de eleições pela primeira vez. No sábado, centenas de mulheres puderam, pela primeira vez, ir a um estádio em Riad para assistir às festividades pelo dia nacional, com concertos e queima de fogos. 

Ali al-Ahmed, diretor do Instituto para Questões do Golfo, um grupo geralmente crítico do regime saudita, acredita que a decisão reflete a influência do príncipe herdeiro. “A proibição era extremamente impopular e difícil para o reino justificar. Era inevitável que a proibição fosse levantada algum dia. Agora é o momento, com a economia saudita lutando com a queda nos preços do petróleo e a monarquia enfrentando pressões internas.” / NYT e EFE

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