Ganoo Essa/Reuters
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Arábia Saudita anuncia redução drástica na peregrinação anual a Meca

Decisão de limitar o hajj provavelmente atingirá a economia da Arábia Saudita e será um baque para as pessoas e famílias que haviam economizado e se planejado para realizar a peregrinação

Sarah Dadouch / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2020 | 04h00

RIAD - Após meses de deliberação sobre o possível cancelamento da peregrinação anual do hajj (peregrinação), para conter a disseminação do novo coronavírus, a Arábia Saudita anunciou nesta semana que limitará drasticamente o número de peregrinos permitidos.

Em uma conferência televisionada ao vivo na terça-feira, 23, o ministro da Saúde da Arábia Saudita e o Ministro do Hajj e da Umra apresentaram o plano do reino para a peregrinação deste ano e as precauções de saúde que o governo aplicará para limitar a propagação do vírus. Ao ser questionado sobre a quantidade de peregrinos permitidos neste ano, o ministro do Hajj e da Umra, Mohammed Saleh, disse que a questão ainda está sendo analisada, mas que o número não passará de 10 mil.

A decisão de limitar o hajj – que em 2019 atraiu quase 2,5 milhões de pessoas para a cidade de Meca – provavelmente atingirá a economia da Arábia Saudita e será um baque para as pessoas e famílias que haviam economizado e se planejado para realizar a peregrinação.

De acordo com um anúncio feito na segunda-feira pelo Ministério do Haje e da Umra, a peregrinação deste ano estará disponível apenas para “quantidades muito restritas” de pessoas que já estão no reino, mas abarcará diferentes nacionalidades, não apenas sauditas. O anúncio não explicou como os peregrinos serão escolhidos.

Na terça-feira, o ministro da Saúde, Tawfiq al-Rabiah, disse que o hajj deste ano excluirá pessoas com mais de 65 anos, que todos os participantes serão testados antes do início da peregrinação e que sua saúde será examinada diariamente. Um hospital foi preparado para qualquer emergência durante o hajj. Os participantes serão colocados em quarentena em casa depois do evento, disse o ministro.

“Existe uma coordenação entre o Ministério das Relações Exteriores (da Arábia Saudita) e todas as missões diplomáticas no Reino da Arábia Saudita. Se Alá quiser, quando for determinado o número de pessoas que poderão cumprir esse dever, estas pessoas serão escolhidas pelas missões diplomáticas e seus escritórios para assuntos de peregrinos”, disse o ministro do Hajj e da Umra, Mohammed Saleh Benten.

A decisão de limitar o hajj, previsto para começar no fim de julho, chega meses depois de o governo ter anunciado que havia interrompido a umra, uma forma mais breve de peregrinação que pode ser realizada em qualquer época do ano.

A diferença, no entanto, é que o hajj é um dos cinco pilares do Islã, um dever que todo muçulmano praticante deve cumprir pelo menos uma vez na vida, desde que tenha condições para tanto.

A Arábia Saudita registrou mais de 161 mil casos de coronavírus, e o número de mortes ultrapassou 1.300. O reino viu um aumento nos números em maio, depois de ter afrouxado as restrições durante o mês sagrado do Ramadã. Desde então, o número de casos vem aumentando constantemente, de modo que em junho o país registrou algo entre 3 mil e 5 mil novos casos por dia. Meca passou meses sob severo lockdown.

No passado, o hajj chegou a ser cancelado por razões de guerra e doença. O último cancelamento ocorreu em 1798, quando a campanha militar de Napoleão Bonaparte no Egito e na Síria interrompeu o caminho para Meca. Mas, desde a fundação do reino moderno da Arábia Saudita, 88 anos atrás, a peregrinação nunca foi muito afetada.

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O cancelamento da peregrinação é um duro golpe para a Arábia Saudita. O haje faz parte da autoproclamada identidade nacional como o principal país muçulmano do mundo.

Seu cancelamento também é o mais recente choque econômico do reino, que sofre com os baixos preços do petróleo. Desde 2017, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman tem como objetivo diminuir a dependência do país em relação ao petróleo por meio de mudanças econômicas. Ele já falou de seus sonhos e objetivos de transformar o país em um centro de entretenimento e turismo.

Seu plano Visão 2030 põe ênfase na importância da identidade islâmica do reino como o lar das duas mesquitas sagradas de Medina e Meca e prevê iniciativas para expandir o hajj, a espinha dorsal do tipo de turismo islâmico que a Arábia Saudita está tentando promover. Os reis sauditas há muito tempo adotam o título de guardião das duas mesquitas sagradas.

O reino anunciou uma expansão das mesquitas, um novo aeroporto na cidade portuária de Jiddah e um novo sistema de metrô para servir os peregrinos. O plano do príncipe herdeiro também busca capitalizar as visitas dos peregrinos e relaxar os termos de seus vistos para permitir que eles viajem para partes do reino até então fechadas ao turismo.

O limite imposto à peregrinação também é um baque para inúmeras empresas de viagens no exterior, especialmente nos países árabes, onde anúncios de pacotes de peregrinação estavam aparecendo nas televisões e nas ruas já em março.

Muçulmanos de todo o mundo também ficarão desapontados com a decisão – é comum que se formem filas por semanas a fio às portas dos consulados sauditas, cheias de pessoas em busca de vistos muito disputados para realizar a peregrinação. Muitos economizam por anos para ter a chance de cumprir seu dever islâmico. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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