Iman Al-Dabbagh/The New York Times
Iman Al-Dabbagh/The New York Times

Arábia Saudita busca se projetar como polo cultural regional no Oriente Médio

Monarquia conservadora se esforça para emergir de uma estagnação cultural transformada na central cinematográfica do Oriente Médio

Vivian Yee e Ben Hubbard / The New York Times , O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2021 | 20h00

JIDDAH -- Longe de casa, uma grávida saudita encontra-se perseguida por demônios internos e externos. Ameaçados pelo insaciável apetite da internet por conteúdo e mistérios cada vez mais perigosos, um pretenso vlogger saudita e seus amigos tentam escapar de uma obscura floresta. Em um casamento, a mãe da noiva entra em pânico quando sua filha desaparece, no momento em que todos os convidados de seu casamento já enchiam o salão.

Esses enredos compõem alguns dos 27 filmes sauditas que estreiam este mês no festival  de cinema de Jiddah, como parte de um imenso esforço da monarquia conservadora de emergir de uma estagnação cultural transformada na central cinematográfica do Oriente Médio.

A iniciativa saudita reflete profundas mudanças nas indústrias de entretenimento em todo o mundo árabe. Ao longo do século passado, enquanto o nome Arábia Saudita evocava pouco além de petróleo, deserto e Islã, Cairo, Beirute, Damasco e Bagdá destacavam-se como faróis culturais, onde filmes de sucesso eram produzidos, canções que alcançavam o topo das paradas eram gravadas e obras literárias que provocavam debates entre intelectuais ocupavam as prateleiras de bibliotecas e livrarias.

Mas ao longo da última década, esses legados foram combalidos por conflitos, derretimentos econômicos e fracassos de governos. Anos de guerra prejudicaram os estúdios de TV sírios e as editoras de Bagdá. Um colapso econômico deixou os cinemas que exibem filmes de arte no Líbano em dificuldades para manter-se abertos. 

A badalada indústria cinematográfica do Egito, que tornou o dialeto árabe falado no país o mais conhecido no mundo, está em declínio artístico há anos, e os programas de TV egípcios foram tomados pelos serviços de inteligência, para promover temas favoráveis ao governo. 

De muitas maneiras, o bastão cultural da região está a dispor do próximo país que quiser levantá-lo, e a Arábia Saudita está investindo pesado para conquistar essa posição. 

No Festival Internacional de Cinema do Mar Vermelho, organizado num terreno que já abrigou um campo de execuções, os moradores de Jiddah arregalaram os olhos diante de um tapete vermelho pelo qual passaram estrelas como Hilary Swank e Naomi Campbell em vestidos reveladores, enquanto influenciadores sauditas discotecavam. 

Tudo isso num país onde, até poucos anos atrás, mulheres não tinham permissão para dirigir carros, cinemas eram banidos e cineastas independentes com frequência tinham de driblar a polícia religiosa para filmar em espaços públicos. 

Para construir a nova indústria, os sauditas estão se valendo da riqueza do petróleo para financiar produções nacionais, bancar estudos de cineastas sauditas no exterior e construir escolas técnicas, estúdios e recintos isolados acusticamente. A Arábia Saudita está financiando iniciativas similares para fomentar domesticamente artistas plásticos, músicos e chefs de cozinha. 

O governo saudita atraiu três produções de Hollywood de grande orçamento para filmar no país, com financiamentos, helicópteros e caças fornecidos pelo governo, esperando superar Jordânia e Marrocos como principal destinação para filmagens de cenários desérticos espetaculares. 

Durante um painel de discussão no festival, Bahaa Abdulmajeed, representante do Ministério de Investimento saudita, afirmou que o reino tem um objetivo: “transformar a Arábia Saudita num novo polo cinematográfico na região”.   

Após Abdulmajeed enumerar os múltiplos estímulos que o reino oferece para atrair a indústria do cinema, Nick Vivarelli, repórter da revista Variety que moderava o painel, deu risada. “OK”, disse ele. “Quer dizer então que, em suma, vocês estão substituindo os entraves burocráticos pelo tapete vermelho.” 

Apesar de toda riqueza, a Arábia Saudita enfrenta grandes desafios. 

O país atrasou-se décadas em relação a constituir uma classe de criadores e técnicos habilidosos. E muitos profissionais árabes do setor relutam em se mudar para uma monarquia socialmente conservadora, em que bebidas alcoólicas são banidas e onde o governo encarcera dissidentes pelas críticas mais sutis. 

Alguns veteranos da indústria questionaram o quanto a mania de cinema saudita deverá durar, apontando para tentativas anteriores dos Emirados Árabes e do Catar de criar indústrias cinematográficas com o poder de seus cofres, iniciativas que fracassaram. Outros têm dúvidas sobre quando a indústria de cinema saudita se tornará lucrativa, sem alimentar-se exclusivamente do petróleo de seu país.   

“Enquanto a ideia for, ‘Estimularemos o empreendedorismo cultural desde que o preço do barril permaneça acima dos US$ 70’, esse esforço estará fadado ao fracasso”, afirmou Mazen Hayek, consultor de comunicação e ex-porta-voz da MBC, a maior rede de TV do mundo árabe, com base em Dubai, nos Emirados Árabes.

Para cultivar a criatividade, afirmou ele, os países árabes devem garantir liberdades pessoais, estado de direito, práticas de livre-mercado e tolerância, incluindo a direitos de pessoas LGBTQ.

Ao seu favor, a Arábia Saudita tem uma população de 22 milhões, o que significa que seus habitantes são capazes de sustentar uma indústria cinematográfica doméstica melhor do que seus minúsculos vizinhos do golfo, afirmou Faisal Baltyuor, diretor da CineWaves, uma distribuidora de filmes com base em Riad. 

Apesar da população saudita representar cerca de um quinto da população do Egito, os sauditas são mais abastados e conectados, o que os torna mais suscetíveis a pagar por serviços de streaming e entradas de cinema. Custando cerca de US$ 18, as entradas dos cinemas sauditas estão entre as mais caras do mundo.

Mas os cinemas do reino só tiveram permissão para reabrir em 2018, depois de 35 anos fechados. Antes disso, os sauditas escapavam para os vizinhos Bahrein ou Dubai para ir ao cinema. Agora, a Arábia Saudita possui 430 salas de exibição, e o número está aumentando, o que torna o país o mercado cinematográfico que cresce mais rapidamente no mundo, com a meta de alcançar 2,6 mil telas até 2030, afirmou  Abdulmajeed.

Em vez de prejudicar seus vizinhos, a abertura saudita poderá impulsionar também cineastas no restante da região. A popularidade dos conteúdos egípcios na Arábia Saudita faz do país um mercado tentador para os estúdios do Egito, afirmou Mohamed Hefzy, diretor da Film Clinic, uma produtora com base no Cairo. 

Várias colaborações entre sauditas e egípcios estão em fase de realização, e uma comédia egípcia em estilo Se beber, não case — Wa’afet Reggala (A Stand Worthy of Men) — foi o lançamento de maior sucesso na Arábia Saudita este ano, arrecadando mais do que filmes de Hollywood.

Programas de TV e filmes sauditas emergem num momento em que a região testemunha hábitos em transformação, o que cria oportunidades. Muitos jovens árabes substituíram as novelas egípcias que dominaram as telas de seus pais pelas séries internacionais transmitidas pelas plataformas Netflix e Shahid, que transmite conteúdo em língua árabe de Dubai. 

Isso criou um grande mercado para conteúdo em língua árabe. 

A Netflix realizou produções jordanianas, egípcias e sírio-libanesas, com variados graus de sucesso, e acaba de anunciar o lançamento de seu primeiro longa-metragem em língua árabe, Perfect Strangers.

Quando Wadjda (2012) — o primeiro longa saudita dirigido por uma mulher, Haifaa al-Mansour — foi filmado, a diretora foi impedida de compartilhar espaço publicamente com membros de sua equipe do sexo masculino. Ela trabalhou dentro de uma van, comunicando-se com os atores por walkie-talkie.

“Estou em choque até agora”, afirmou a atriz Ahd Kamel, que fez o papel de uma professora conservadora em Wadjda, que narra a trajetória de uma jovem saudita rebelde e sua busca desesperada por uma bicicleta, enquanto caminhava pelo festival. “Isso é surreal.” 

O comediante e ator saudita Hisham Fageeh afirmou que as autoridades de seu país lhe disseram que filmes futuros devem evitar falar diretamente de Deus ou de política. 

Sumaya Rida, atriz de dois filmes exibidos no festival, Junoon e Rupture, afirmou que as produções tiveram como objetivo retratar casais sauditas realisticamente, ao mesmo tempo que evitaram exibições físicas de afeto. 

Mas cineastas afirmam que, de qualquer maneira, ficaram felizes em receber o apoio, aceitando que isso viria acompanhado do preço das restrições à criação. 

“Não tenho intenção de provocar para provocar. O propósito do cinema é cutucar. O cinema não tem de ser didático”, afirmou Fatima al-Banawi, atriz e diretora saudita, cujo primeiro longa está sendo financiado pelo festival. “Isso vem naturalmente. Fomos bons em contornar essas coisas por muito tempo.”/ TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

 

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