Middle East Monitor / Reuters
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Arábia Saudita condena cinco pessoas à morte pelo assassinato do jornalista Jamal Khashoggi

Outras três pessoas já tinham sido condenadas pelo mesmo crime; Khashoggi morreu em 2 de outubro do ano passado no consulado da Arábia Saudita em Istambul

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2019 | 07h47
Atualizado 25 de dezembro de 2019 | 20h22

O Tribunal da Arábia Saudita condenou cinco pessoas à morte por participação no assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi. Outras três pessoas já tinham sido condenadas pelo mesmo crime. Todos ainda podem recorrer da decisão.

Khashoggi era colunista do jornal Washington Post. Ele foi assassinado dentro do Consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. O assassinato provocou uma violenta reação mundial contra o regime saudita, manchando a imagem do príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, e ameaçando os planos do país, o maior exportador de petróleo do mundo, de diversificar sua economia.

O assassinato de Khashoggi desencadeou a maior crise diplomática da Arábia Saudita desde os ataques de 11 de setembro, quando o reino foi alvo de ofensa ao se saber que 15 dos 19 terroristas que perpetraram os ataques eram cidadãos sauditas.

Nesta segunda-feira, 23, o porta-voz da Procuradoria-Geral saudita, Shalaan al Shalaan, disse em entrevista coletiva que o conselheiro do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Saoud al-Qahtani, o oficial de inteligência saudita, Ahmed Asiri, e o general do consulado de Istambul, Mohamed al-Otaibi foram liberados por falta de provas. Os três eram as principais personalidades processadas no caso.

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Dos 11 homens levados a julgamento, 5 foram condenados à morte; 3, a penas de prisão que chegam a 24 anos; e os demais, absolvidos.

De acordo com o procurador, Qahtani, o conselheiro do príncipe, foi investigado, mas não foi acusado por “falta de provas”. Asiri, oficial de inteligência, foi investigado e acusado, mas absolvido pelas mesmas razões. Asiri é suspeito de ter supervisionado o assassinato e de ter sido aconselhado por Qahtani. O conselheiro real, que dirigiu violentas campanhas nas redes sociais contra opositores sauditas, não aparece em público desde o início do caso.

Maher Mutreb, um agente de inteligência que viajava frequentemente com o príncipe herdeiro para o exterior, o especialista forense Salah al-Tubaigy e Fahad al-Balawi, membro da Guarda Real saudita, estavam entre os indiciados no caso, segundo fontes familiarizadas.

Não está claro se eles estão, ou não, entre os condenados à morte. As fontes disseram que muitos dos réus se defenderam no tribunal, alegando que cumpriam ordens de Asiri, que foi descrito como o “líder” da operação.

Khashoggi foi visto pela última vez entrando no Consulado da Arábia Saudita em Istambul, em 2 de outubro de 2018, para pegar documentos comprovando que não era casado.

O jornalista foi estrangulado, e seu corpo, cortado em pedaços por uma equipe de 15 homens vindos de Riad, segundo as autoridades turcas. Seus restos mortais nunca foram encontrados e a polícia turca crê que o corpo foi dissolvido em ácido.

Evidências apontaram que o príncipe herdeiro e outros oficiais sauditas foram responsáveis pelo assassinato do jornalista.

Após ter apresentado várias versões para o assassinato, as autoridades sauditas acabaram por admitir que ele foi cometido por agentes que agiram sozinhos e sem a ordem de superiores. Mas evidências apontaram que o príncipe herdeiro e outros oficiais sauditas foram responsáveis pelo assassinato. O príncipe negou qualquer envolvimento, mas disse à TV americana em setembro que assumiu “total responsabilidade como líder na Arábia Saudita”.

No ano passado, a Arábia Saudita trabalhou incansavelmente para mudar de assunto depois que agentes sauditas mataram Khashoggi num complô que, segundo conclusão da CIA, foi aprovado pelo príncipe da coroa.

Embora as Nações Unidas e o Senado dos Estados Unidos tenham responsabilizado diretamente o príncipe herdeiro pelo crime, o homem forte do reino não foi processado. O julgamento dos suspeitos começou no início de janeiro, na Arábia Saudita.

Reações

Para analistas, o reino saudita organizou o julgamento em uma tentativa de limpar sua imagem deteriorada após o assassinato do jornalista. “O veredicto serve para mascarar e não fornece justiça, nem verdade, para Jamal Khashoggi e seus parentes”, disse Lynn Maalouf, diretora de investigações sobre o Oriente Médio da Anistia Internacional. ”O veredicto não resolve o envolvimento das autoridades sauditas no crime”, acrescentou, lembrando que o julgamento foi realizado a portas fechadas.

A Turquia, onde os eventos ocorreram, considerou que a decisão “está longe de responder às expectativas do nosso país e da comunidade internacional”.

A organização Repórteres Sem Fronteiras considerou que a Justiça foi desrespeitada. “O julgamento não respeitou os princípios de justiça internacionalmente reconhecidos” e pode ser “uma maneira de silenciar as testemunhas do assassinato para sempre”, afirmou o secretário-geral da RSF, Christophe Deloire.

O governo americano também reagiu, considerando que foi dado um “passo importante” no caso Khashoggi e, ao mesmo tempo, pediu “mais transparência” a Riad. / AFP, NYT e W.POST

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