Arábia Saudita continuará a agir por conta própria

Embaixador saudita na Grã-Bretanha diz que Ocidente colocou em risco a região e justifica possíveis ações em nome das 'responsabilidades globais' de seu país

MOHAMMED BIN , AL-SAUD, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2013 | 02h07

A Arábia Saudita tem uma relação de amizade com seus parceiros ocidentais há décadas. No caso de alguns, como a Grã-Bretanha, onde sou embaixador, há séculos. São alianças estratégicas que beneficiam ambas as partes. Recentemente, tais relações têm sido submetidas a provas - principalmente pelas divergências com relação a Irã e Síria.

Achamos que muitas das estratégias políticas adotadas pelo Ocidente vêm pondo em risco a estabilidade e a segurança do Oriente Médio. É um jogo perigoso sobre o qual não podemos ficar em silêncio e não vamos cruzar os braços.

A crise na Síria continua a todo vapor, contabilizando mais de 100 mil mortos. E o mais chocante é que, segundo relatório do Oxford Research Group, entre eles, 11 mil tinham menos de 17 anos e mais de 70% morreram em ataques aéreos e bombardeios de artilharia que tinham como alvo deliberado áreas civis.

Apesar dos esforços internacionais para remover as armas de destruição em massa usadas pelo regime assassino de Bashar Assad, com certeza, o Ocidente tem de entender que o próprio regime é a maior arma de destruição em massa entre todas.

As armas químicas são apenas uma peça minúscula da máquina de matar de Assad. Apesar de, aparentemente, ele ter concordado com as iniciativas internacionais para pôr fim ao conflito, seu regime continuará fazendo tudo o que puder para frustrar qualquer solução séria.

O regime é apoiado por forças iranianas. Esses soldados não entraram na Síria para protegê-la contra uma ocupação externa hostil. Estão ali para dar suporte a um regime perverso que tem causado sofrimento e arruinando a vida da população síria. É algo comum tratando-se do Irã, que já financiou e treinou milícias no Iraque, terroristas do Hezbollah, no Líbano, e militantes no Iêmen e no Bahrein.

Negociações. Em vez de contestar os governos iraniano e sírio, alguns dos nossos parceiros ocidentais recusam-se a adotar uma ação necessária contra eles. O Ocidente tem permitido que um regime sobreviva e o outro continue seu programa de enriquecimento de urânio, apesar de todos os riscos decorrentes disso.

As negociações deste ano com o Irã podem debilitar a determinação do Ocidente de negociar com ambos os governos. Qual o preço da "paz", porém, quando é firmada com tais regimes? As decisões de política externa tomadas por algumas capitais ocidentais colocam em risco a estabilidade da região e, potencialmente, a segurança de todo o mundo árabe.

O Reino da Arábia Saudita não tem outra escolha senão ser mais assertivo nos assuntos internacionais e mais determinado do que nunca em defender a estabilidade necessária para a nossa região.

A Arábia Saudita, como o berço do Islã e uma das mais importantes potências políticas do mundo árabe, tem enormes tarefas na região. Temos responsabilidades globais - econômicas e políticas - na posição de banco central energético do mundo. E temos a responsabilidade humanitária de fazer tudo o que for possível para pôr fim ao sofrimento na Síria.

Agiremos para cumprir com essas responsabilidades, com ou sem o apoio dos nossos parceiros ocidentais. Nada será desprezado na nossa busca de uma paz sustentável e da estabilidade do mundo árabe, como o rei Abdullah - na época ainda príncipe herdeiro da Arábia Saudita - mostrou ao liderar a Iniciativa de Paz Árabe, de 2002, para solucionar o conflito palestino-israelense.

Mostramos nossa disposição para agir com independência quando decidimos rejeitar um assento no Conselho de Segurança da ONU. Qual seria a finalidade de estar ali, participando de discussões que não levam a nada quando tantas vidas estão ameaçadas e tantas oportunidades para atingirmos a paz e a segurança estão sendo frustradas pela incapacidade de agir das Nações Unidas? Continuaremos exibindo nossa determinação mediante o apoio ao Exército Sírio Livre e à oposição síria. É muito fácil para alguns no Ocidente usar a ameaça das atividades terroristas da Al-Qaeda na Síria como desculpa para sua hesitação e inércia.

Ação. As atividades da Al-Qaeda são um sintoma do fracasso da comunidade internacional em não intervir. Elas não podem ser uma justificativa para essa inércia. A maneira de impedir a ascensão do extremismo na Síria - e em outros lugares - é apoiar os defensores da moderação: financeiramente, materialmente e também militarmente, se necessário.

A Arábia Saudita permanecerá nesse caminho enquanto for necessário. Esperamos continuar lado a lado com nossos amigos e parceiros, que já falaram tanto sobre a importância dos valores morais na política externa. No entanto, neste ano, apesar de toda a conversa sobre "linhas vermelhas", no momento mais importante, nossos parceiros renunciaram à nossa segurança e colocaram em risco a estabilidade da nossa região. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EMBAIXADOR DA ARÁBIA SAUDITA

NA GRÃ-BRETANHA

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