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Arábia Saudita, tigre de papel?

Como explicar que a Arábia Saudita, país encharcado até o limite, de aviões, bombas, lanchas, tanques de sistemas de alerta, não conseguiu antecipar-se ao golpe?

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2019 | 07h00

Há dias os drones, ou mísseis, atingiram o coração da Arábia Saudita, esse coração estranho feito de petróleo e dólares. Oficialmente, ainda não sabemos quem armou esses drones ou mísseis assassinos, capazes de seguir diretamente para as instalações de petróleo da Arábia Saudita (Aramco) sem que nenhum dos inúmeros espiões, inúmeros hackers, inúmeros policiais do Iêmen, reivindicassem a glória de serem capazes de abalar todo o Oriente Médio e sacudir a economia global como uma ameixeira.

Mas ninguém leva a sério essa afirmação. Uma operação tão sofisticada e brilhante não pode ter sido realizada por esses rebeldes houthis.

De repente, todos os olhos se voltam para o Irã, o protetor dos rebeldes houthis, os inimigos mortais da Arábia Saudita e o pesadelo de Washington. Na região, o Irã é o único país capaz de realizar esse ataque. O Irã nega toda responsabilidade. E ninguém acredita no Irã.

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Este não é o único mistério neste caso. Como explicar que a Arábia Saudita, país encharcado até o limite, de aviões, bombas, lanchas, tanques de sistemas de alerta, não conseguiu antecipar-se ao golpe?

A Arábia Saudita, gravemente ferida e envergonhada como uma raposa que teria sido capturada por uma galinha, se declara inocente.

Ela havia se protegido magnificamente contra um possível caminhão-bomba kamikaze, cheio de explosivos. Mas os estrategistas sauditas haviam esquecido o céu e foi pelo céu que veio o drama.

No entanto, o país estava protegido contra mísseis pelo sistema Patriot Americano, que é considerado confiável e formidável. E então?

A imprensa de Riad está atordoada. O jornal Okaz escreve: “A Arábia Saudita jamais foi confrontada com um acontecimento desse tipo. É um novo 11 de setembro.

Geração após geração, nos disseram que nosso principal inimigo era Israel, que Moshe Dayan, Golda Meir ou Netanyahu eram a personificação do mal. Hoje, nosso principal inimigo é o Irã. Este golpe contra a Aramco revela quão perigosa é a indiferença internacional”.

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O jornal Asharq Al-Awsat descarta o debate sobre quem é responsável por esse “golpe certeiro”. “Seja este ou aquele”, diz ele, "não importa. Tudo veio de Teerã.

Essa ameaça ao petróleo preocupa o mundo inteiro. A questão é colocada a todos, especialmente à Europa: devemos nos acostumar com essas ações? Em nome de quê? Em nome de um acordo atrás do qual os europeus correm, levados pelo suave sonhador Emmanuel Macron (...), mas, de tempos em tempos, é preciso recorrer ao rifle”.

O jornal Rai Al-Youm, pró-árabe, mas francamente antisaudita, comenta a falta de defesa da Aramco. “Como”, ele pergunta, “os drones conseguiram atingir seu alvo com precisão, em uma área que deveria ser a mais protegida do país por causa de sua importância estratégica, pois concentra a maior parte da riqueza do país?”

O jornal conclui: “As pessoas que cometeram essa ação fazem parte de uma milícia xiita iraquiana, ou são rebeldes iemenitas? Na verdade, eles fazem parte dos grupos xiitas que formam uma frente liderada pelo Irã, com um elevado grau de coordenação, altamente operacionais e complementares.

A mensagem é que eles podem atacar a Arábia em qualquer lugar, mesmo em lugares remotos onde Riad pode matar mais iemenitas, mas eles nunca se renderão. "

O jornal conclui que já houve três ataques em um ano contra as instalações da Aramco e que a data foi cuidadosamente escolhida: no momento em que a gigante petrolífera conclui sua oferta pública inicial.

"Agora quem vai querer comprar ações dessa companhia saudita que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman prometeu abrir a investidores privados?”. A última frase é importante: o príncipe Mohammed bin Salman é o filho favorito do velho rei da Arábia.

Ele conquistou uma grande reputação em pouco tempo, ao atenuar algumas das proibições feitas às mulheres: educação física, ir ao cinema, dirigir um carro.


Finalmente, “um príncipe esclarecido, como se disse, mas muito rapidamente se viu que esse príncipe iluminado era um príncipe obscuro. Ele esteve envolvido no assassinato vergonhoso, uma chacina, de um jornalista da oposição saudita. Hoje, ele é visto como alguém suspeito de ser incapaz de impedir um terrível ataque ao petróleo saudita. Em Riad, esse fanfarrão sem moralidade é execrado. O velho rei, até agora, manteve seu apoio. Ele não se cansará dos crimes ou loucuras de tal rebento?" / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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