Arábia Saudita, um país que vem mudando

Estereótipos culturais que o Ocidente tem a respeito dos sauditas já não representam a totalidade da sociedade do país, que sente o impacto dos avanços tecnológicos

O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2012 | 03h07

Existem muitas ideias equivocadas no Ocidente sobre a vida das mulheres na Arábia Saudita, como também existem muitos conceitos errados entre os sauditas sobre as pessoas que vivem no Ocidente.

Sei disso por experiência própria. Sou uma mulher saudita e passei a maior parte da minha infância no Kansas, onde, mesmo antes dos atentados do 11 de Setembro, tivemos de enfrentar preconceitos e conceitos equivocados bastante desagradáveis. Mais tarde, retornei a meu país casada, tive três filhos e comecei a trabalhar como professora de inglês e conferencista em institutos de ensino sauditas.

Como é natural, muitas pessoas no Ocidente têm noção da vida na Arábia Saudita a partir do que a mídia informa. Assim, ficam sabendo que as mulheres aqui são proibidas de dirigir, devem andar quase completamente cobertas quando em sociedade e as solteiras só podem aparecer em público acompanhadas de membros da família. Tudo isso é mais ou menos verdade, mas uma outra realidade é omitida, já que a dona de casa de família abastada tem uma vida muito boa. Quando não há problemas, uma mulher saudita vive uma vida confortável.

Para ela é arranjado um marido respeitável para se casar; normalmente ela tem um chofer, empregados e uma ampla família pronta a lhe dar apoio financeiro e emocional. Tudo o que se espera dela é ter filhos e cumprir com suas obrigações sociais. Não me entendam errado: as informações oferecidas pela mídia internacional sobre a falta de direitos das mulheres sauditas são verdadeiras. O mundo está ficando cada vez menor, graças à revolução das comunicações e a uma globalização irrefreável, que nos está obrigando a enfrentar conflitos culturais penosos. Desejamos manter o melhor das nossas tradições, mas também temos de aceitar as mudanças que as boas coisas da vida moderna e do progresso nos oferecem. Esse é um problema enfrentado diariamente na Arábia Saudita.

É o caso de Manal al-Sharif, que se tornou o rosto de um movimento underground pelos direitos da mulher na Arábia Saudita e postou um vídeo em que dirigia um carro. Apesar de ter se empenhado em proclamar, no vídeo, sua lealdade ao rei e ao país, tudo isso foi inútil. Líderes religiosos conservadores a condenaram como uma pessoa promíscua e imoral; sua família foi perseguida e ela ficou presa por nove dias.

No mês passado, Manal foi criticada por aceitar o Prêmio Vaclav Havel em Oslo. Seus detratores afirmaram que seu discurso feriu a imagem do país.

Também em maio, uma petição com mil assinaturas foi apresentada ao governo exigindo que a proibição das mulheres dirigirem jamais seja revogada, o governo implemente políticas que mantenham a mulher em casa e mulheres como Manal sejam responsabilizadas por suas maneiras ocidentalizadas. Nenhum dos signatários da petição é uma figura pública. Muitos eram da mesma família. A maioria afirma ser estudante de faculdade e donas de casa.

Recato. Outra campanha que teve início no mês passado, intitulada "Minha impressão digital, minha dignidade" pede que as fotos nas carteiras de identidade das mulheres sejam substituídas por sua impressão digital, de modo que seu recato não seja violado ao exibirem seus rostos em público e tendo suas fotos nos registros acessíveis a funcionários homens do governo com os quais não têm parentesco.

Nós vivemos de fato numa sociedade em que existe a segregação de gênero. Mas sauditas ricos e educados que acompanham as notícias internacionais não aceitam a opinião de que membros da sua família são subjugados e oprimidos. Por exemplo, para muitos sauditas, a exigência de que suas mães, mulheres e irmãs tenham de obter permissão para deixar o país ou frequentar uma universidade é um inconveniente de menor importância.

É também difícil para muitas pessoas abastadas compreenderem o fato de que existem realmente mulheres que não estão contentes de viver num país cujo sistema legal ainda permite que um velho de 80 anos se case com uma menina de 11 anos ou possa obrigar um casal feliz a se divorciar se os tribunais religiosos aceitarem as alegações de um membro da família de que o marido vem de uma tribo inferior.

Para muitos sauditas, o mundo exterior tem motivos ocultos para criticar seu país. Às vezes na escola os professores afirmavam que os "infiéis" assumiam maldosamente uma posição hipócrita sobre a justiça e os direitos humanos para macular a mulher muçulmana e manchar a imagem do Islã.

O orgulho nacional e a lealdade à cultura de uma pessoa podem produzir mentalidades mais tacanhas. O racismo, naturalmente, não é uma peculiaridade saudita. Tendo crescido no cinturão bíblico do Meio Oeste americano na década de 80, minha família e eu algumas vezes fomos tratados como inimigos. Lembro-me chocada como um homem cuspiu no carro de meu pai ao saber que o proprietário do veículo era árabe. Quando tinha em torno de 10 anos, fui abordada por uma mulher num banheiro feminino que me agarrou pelos cabelos e começou a me insultar. Um homem, aparentemente seu namorado, se apressou em afastá-la. Ele explicou que ela havia bebido muito e acusava os árabes pela morte do seu irmão no Líbano.

Inversamente, alguns pais sauditas não permitiam que suas filhas brincassem comigo, pois achavam que eu poderia ensinar a elas como ficarem "ocidentalizadas". Meu árabe com sotaque americano desagradava meus colegas de classe e até alguns professores. Aqueles que davam aulas de religião mostravam-se desconfiados, com frequência checando se eu sabia fazer as orações do meio-dia.

Dentro da Arábia Saudita, o mundo exterior só começou a ser acessível ao cidadão mediano com a introdução da TV via satélite, nos anos 90, o que melhorou com a chegada da internet na década passada. Hoje, os sauditas podem ver o restante do mundo com os próprios olhos em vez de aceitar a versão distorcida apresentada por nosso establishment religioso.

Com o programa de bolsas de estudo do rei Abdullah, desde 2005 mais de 180 mil estudantes sauditas, rapazes e moças tiveram a oportunidade de estudar e viver nos EUA, Europa e Ásia. Com isso, um número cada vez maior de sauditas pensa de maneira mais autônoma e não segue mais cegamente os ditames dos religiosos ultraconservadores que controlam as áreas cultural, judiciária e educacional do governo desde os anos 70.

Assim, à medida que o mundo fica menor e mais sauditas estão se comunicando pessoalmente com pessoas de outras culturas, religiões e línguas, os estereótipos que assimilamos - e aqueles que os estrangeiros mantêm a nosso respeito - estão sendo demolidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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