Arafat é proibido de falar e palestinos saem da Cúpula Árabe

Na abertura de uma tumultuada cúpula marcada por embates verbais e abandonos, o príncipe herdeiro saudita Abdullah propôs nesta quarta-feira que o mundo árabe ofereça a Israel "relações normais" e segurança em troca da completa retirada israelense de territórios árabes ocupados desde 1967 e o direito de retorno dos refugiados palestinos.Quando Abdullah apresentava sua esperada iniciativa de paz, ocorreu um imbróglio depois de o país anfitrião, o Líbano, ter impedido o líder palestino Yasser Arafat de discursar ao vivo no fórum, numa transmissão via satélite a partir da Cisjordânia. Em protesto, a delegação palestina abandonou a sessão de abertura.O primeiro-ministro do Líbano, Rafik Hariri, afirmou mais tarde que o discurso do líder palestino poderia ser feito na próxima sessão, na quinta-feira pela manhã, apesar de não ter ficado claro como a problema foi resolvido.Arafat, EUA e IsraelArafat, em entrevista à rede árabe Al-Jazeera, sem transmissão direta para a cúpula, apoiou a iniciativa saudita e pediu aos líderes árabes para endossá-la.Nos Estados Unidos, a porta-voz Claire Buchan disse que o presidente George W. Bush "exortou os outros líderes a trabalharem com as idéias do príncipe herdeiro a fim de tratarem da causa da paz na tumultuada região".Israel, entretanto, reagiu com frieza à iniciativa, dizendo que a oferta de "relações normais" era muito vaga e rejeitou o direito de retorno dos refugiados palestinos.ComissãoA cúpula árabe começou a debater se a proposta de Abdullah deve ser adotada, com várias nações expressando apoio e a Síria buscando algumas mudanças. Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Líbano, Marrocos - que preside a comissão da Liga Árabe sobre o futuro de Jerusalém - e Síria formaram uma comissão encarregada de transformar a iniciativa de paz numa proposta formal.A cúpula está sendo marcada pelas ausências. Dos 22 Estados membros da Liga Árabe, uma dezena de líderes não compareceram. Os mais esperados - Arafat e os líderes do Egito e da Jordânia, todos favoráveis ao plano saudita - não foram em protesto contra as políticas israelenses.Ainda assim, Abdullah apresentou a iniciativa num discurso de 10 minutos que recebeu aplausos e foi transmitido ao vivo pela tevê. O príncipe saudita falou pela primeira vez sobre a proposta no mês passado e desde então trabalhou em detalhes, acrescentando o pedido do direito ao retorno, uma tradicional exigência árabe não mencionada inicialmente.Pequena mudançaAbdullah ofereceu "relações normais" a Israel - uma pequena mudança da "completa normalização" que oferecia em seus primeiros comentários em fevereiro. Israel considerou hoje que o novo termo não chega a ser normalização de relações.A terminologia sobre o nível de paz a ser oferecido a Israel foi objeto de intensas discussões entre líderes árabes antes da cúpula de Beirute. A Síria e outros países consideravam que "completa normalização" - que implicaria trocas comerciais, turísticas e culturais - seria uma concessão muito grande feita muito cedo. Eles pressionaram pelo termo "ampla paz" - visto por Israel como uma paz mais distante.Abdullah manteve-se perto da linguagem original, apesar de ele não usar o termo exato. Ele disse que os árabes deveriam apresentar um plano conjunto para ser enviado ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) baseado em "relações normais e a segurança de Israel em troca da completa retirada israelense de todas terras árabes ocupadas, o reconhecimento de um Estado palestino independente com al-Quds al Sharif (Jerusalém Oriental) como sua capital e o retorno dos refugiados.Verdadeira paz"Ter uma verdadeira paz é a única forma de se normalizar as relações entre todos os povos e a única coisa que pode substituir toda a destruição", disse Abdullah."Permitam-me neste ponto falar diretamente ao povo israelense e dizer a eles que o uso da violência por mais de 50 anos tem apenas resultado em mais violência e destruição e que o povo israelense está mais distante do que nunca da segurança e da paz, apesar da superioridade militar e das tentativas de suprimir e humilhar", considerou AbdullahNa mais nova ilustração da violência condenada por Abdullah, um atacante suicida detonou explosivos hoje num hotel da cidade israelense de Netanya, matando pelo menos 15 pessoas e ferindo mais de 100. Mais cedo, tropas israelenses haviam matado a tiros dois palestinos armados que haviam se infiltrado em Israel pela Faixa de Gaza.Paz genuína"Digo ao povo israelense que se seu governo abrir mão da política da força e supressão e aceitar uma paz genuína, não hesitaremos em aceitar o direito do povo israelense de viver em segurança com os demais povos da região", garantiu Abdullah.Arafat classificou a iniciativa de "corajosa". Falando à Al-Jazeera, ele pediu aos participantes da cúpula para endossar a oferta como "uma iniciativa árabe pela paz dos bravos entre nós e os povos israelense e judeu no mundo".Arafat concedeu a entrevista à rede por satélite árabe depois que autoridades libanesas não permitiram que ele falasse à cúpula ao vivo por teleconferência, provocando a saída da delegação palestina.PassaportesUm funcionário palestino disse que a delegação já havia pegado seus passaportes no hotel e preparava-se para deixar Beirute, em protesto pela proibição ao discurso ao vivo de Arafat.Os Emirados Árabes Unidos também chamaram de volta o chefe de sua delegação em solidariedade aos palestinos, informou a Agência de Notícias dos Emirados. O governo do presidente libanês, Emile Lahoud, queria que Arafat enviasse um discurso gravado, ao invés de falar ao vivo via satélite. "Transmissão ao vivo oferece alguns perigos devido à possibilidade dos israelenses interferirem na linha", argumentou.ClarezaOs árabes há muito defendem a fórmula de troca de terra pela paz no Oriente Médio. Mas a proposta de Abdullah criou interesse porque define com mais clareza o que o mundo árabe pretende oferecer a Israel e porque ela vem da Arábia Saudita, que pouco se envolvia no processo de paz.Israel afirmou hoje que a oferta de Abdullah ainda era muito vaga. "Gostaríamos de ouvir diretamente dos sauditas o que eles querem dizer com relações normais", disse Raanan Gissin, assessor de Sharon.Gissin avaliou que enquanto normalização significa relações plenas e reconciliação entre dois países, "relações normais" poderiam ser restritas ao reconhecimento formal entre dois governos.Com IsraelEle propôs que seja realizada uma nova cúpula árabe com a presença de Israel para que as questões possam ser esclarecidas - uma idéia que os Estados árabes têm rejeitado.Danny Ayalon, outro assessor de Sharon, disse que é "totalmente inaceitável" exigir que Israel reconheça o direito de retorno dos refugiados.Israel alega que o retorno dos palestinos que fugiram ou foram expulsos de suas casas na guerra de 1948 iria minar a natureza do Estado judeu. Sharon também nunca aceitou o princípio de devolver todas as terras árabes ocupadas.IrritaçãoEnquanto a maioria dos ausentes à cúpula alegou problemas de saúde, vários moderados não compareceram devido à irritação com políticas israelenses.Arafat decidiu não comparecer depois que Israel exigiu, para autorizar sua viagem, que ele aceitasse antes um cessar-fogo e advertiu que, se houvesse violência enquanto ele estivesse fora, poderia não permitir que ele retornasse. O presidente egípcio, Hosni Mubarak, não compareceu ao encontro em solidariedade com Arafat.No último minuto, o rei Abdullah II, da Jordânia, também resolveu não ir, devido ao cansaço e a uma dor de garganta depois de um longo giro pelo exterior, segundo um de seus ministros.ONURessaltando a atenção atraída pela proposta de paz saudita, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, também discursou na cúpula. Ele pediu aos líderes árabes que ofereçam uma "garantia confiável de que, uma vez que Israel conclua uma paz justa e compreensível e se retire das terras árabes, o Estado judeu possa aspirar à paz e a relações normais e completas com todos os árabes do mundo".Egito e Jordânia assinaram pactos de paz com Israel em 1979 e 1994, respectivamente. Estes dois países e a Mauritânia são os únicos membros da Liga Árabe com laços diplomáticos totais com Israel.Os palestinos assinaram acordos econômicos, políticos e de segurança, enquanto Catar e Omã possuem relações comerciais de baixo nível com Israel.

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