Arafat vence batalha política; Sharon enfrenta crise no governo

O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, venceu nesta terça-feira uma dura batalha política ao conseguir a aprovação, no Parlamento, de seu gabinete de 19 ministros, apesar de oposicionistas exigirem uma reforma política ampla e a imposição de limites ao poder de Arafat. Em Jerusalém, a apenas alguns quilômetros de Ramallah, o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, trabalhava contra o relógio para evitar o possível rompimento de sua coalizão de governo, já que o Partido Trabalhista ameaça sair.Após um dia de discussões acaloradas no Parlamento palestino, os legisladores aprovaram, por 56 a 18, o novo gabinete de Arafat, concedendo a ele uma importante vitória política. Nos últimos meses, ele sofreu diversos cercos do Exército de Israel contra seu quartel-general e críticas intensas entre seu povo."Estou orgulhoso do processo democrático palestino. Esta é uma vitória do povo palestino", disse Arafat após a divulgação do resultado. "É mais um passo na direção das reformas."Horas antes, o líder palestino irritou-se quando os parlamentares questionaram se o novo gabinete, com alguns nomes de antigos aliados de Arafat, seria eficaz o bastante para encontrar uma saída para o atual conflito com o Estado judeu."Não creio que este gabinete possa tirar os palestinos dessa crise", comentou o parlamentar Ziad Abu Amr. Exaltado, Arafat gritou: "Você não pode falar dos membros do comitê executivo, você não pode!"A TV Palestina, que transmitiu parte das discussões ao vivo, não mostrou o acalorado debate que antecedeu a votação.O novo gabinete é uma das medidas solicitadas aos palestinos num plano de paz proposto pelos Estados Unidos. O gabinete tem apenas quatro membros que nunca participaram, antes, de outras composições ministeriais. Críticos reclamam que alguns acusados de corrupção continuam com seus cargos."Creio que o povo palestino merece um governo melhor", disse o parlamentar Muawiyah al-Masri. "Alguns desses ministros deveriam ser julgados por corrupção, mas agora fazem parte do governo."O mais importante novo nome é Hani al-Hassan, ministro do Interior, que terá de supervisionar a reestruturação dos serviços de segurança, atualmente composto por mais de 10 diferentes agências.Arafat, discursando no Parlamento, criticou as "bárbaras" ações militares israelenses contra os palestinos, mas disse que continuava em busca da paz."O levante do povo e sua rejeição da ocupação e assentamentos (judaicos) não significam uma rejeição a uma paz abrangente", afirmou.Enquanto isso, uma acirrada disputa envolvendo os assentamentos judaicos construídos em territórios palestinos autônomos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza ameaça cada vez mais a coalizão de governo de Sharon e poderá causar a antecipação das eleições.O Partido Trabalhista, principal componente da coalizão de Sharon, ameaça votar contra a proposta de orçamento e deixar o governo.Binyamin Ben-Eliezer, ministro da Defesa e líder dos trabalhistas, informou que já começou a conversar com Sharon sobre as datas para o próximo pleito."Pedi ao primeiro-ministro que se sente comigo para começarmos a discutir uma data consensual para as eleições", disse Ben-Eliezer à tevê israelense. "Podemos chegar a uma data entre abril e março, quando ele quiser."Sharon dá muita importância a seu "governo de união", devido aos mais de dois anos de conflito com os palestinos. Ele diz que pretende manter a coalizão ativa.Segundo a tevê israelense, Sharon telefonou a Ben-Eliezer e elogiou sua atuação como ministro da Defesa e disse que ele deveria continuar no governo. Mas Ben-Eliezer manteve-se firme em sua posição de rejeitar o orçamento, informou a tevê.O Partido Trabalhista quer que Sharon corte cerca de US$ 145 milhões destinados aos assentamentos judaicos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Sharon, um patrono da colonização dos territórios palestinos, rejeita a exigência e avisou que afastará da coalizão qualquer partido que rejeitar seu orçamento.Líderes empresariais israelenses reuniram-se com Sharon nesta terça-feira e sugeriram que os trabalhistas aprovem o orçamento em primeiro turno, na votação de amanhã, e tentem fazer com que suas exigências sejam atendidas nas próximas votações, que são mais importantes, informou Effi Oshaya, presidente da convenção trabalhista. O orçamento precisa ser aprovado em três votações pelo Knesset (Parlamento).Mas o Partido Trabalhista rejeitou a sugestão, disse Oshaya, que participou da mediação. "Sharon não fez nenhuma proposta séria", comentou. Os trabalhistas têm hoje 25 cadeiras no Knesset, seis a mais que o Likud, partido de Sharon. O primeiro-ministro, porém, poderia reestruturar sua coalizão buscando o apoio de partidos menores.Se o moderado Partido Trabalhista sair da coalizão, o governo Sharon será majoritariamente formado por partidos religiosos e de extrema direita.Um governo nesses moldes pode fazer com que Sharon endureça ainda mais as ações de seu Exército contra os palestinos. No entanto, membros do Likud alertam que uma coalizão como esta seria instável e o primeiro-ministro acabaria tendo de convocar novas eleições em 90 dias.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.