Arap Moi desviou US$ 2 bi do Quênia, aponta relatório

Segundo documento de 2004 da Kroll, dinheiro foi transferido para 28 países

Xan Rice, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2001 | 00h00

A dimensão estarrecedora da corrupção perpetrada pela família do ex-líder queniano Daniel Arap Moi - que ocupou o poder entre 1978 e 2002 - foi exposta na noite de quinta-feira, num relatório secreto que revelou uma rede de empresas de fachada, fundos secretos e laranjas usada por seu círculo próximo para desviar centenas de milhões de dólares para 28 países, entre eles a Grã-Bretanha. O relatório de 110 páginas da consultoria internacional de risco Kroll, lido pelo jornal The Guardian, afirma que Moi e seus parentes e amigos desviaram mais de US$ 2 bilhões em verbas públicas. A quantia equipara a família Moi aos outros grandes cleptocratas da África: Mobutu Sese Seko, do Zaire (hoje República Democrática do Congo), e Sani Abacha, da Nigéria, ambos já falecidos. Os bens acumulados incluem propriedades multimilionárias em Londres, Nova York e África do Sul, além de uma fazenda de 10 mil hectares na Austrália e contas bancárias com centenas de milhões de dólares.O relatório, encomendado pelo governo do Quênia, foi apresentado em 2004, mas não levou a nenhuma iniciativa. O documento afirma que: Dois filhos de Moi - Philip e Gideon - tinham fortunas de US$ 773 milhões e US$ 1,1 bilhão, respectivamente. Assessores de Moi aliaram-se a chefões da droga italianos e falsificaram dinheiro. Seu círculo mais próximo possuía um banco na Bélgica. US$ 8 milhões foram usados para a compra de uma casa no condado inglês de Surrey e US$ 4 milhões para a compra de um apartamento em Knightsbridge, área de alto luxo em Londres. O presidente Mwai Kibaki encomendou a investigação da Kroll sobre o antigo regime em 2003, logo após chegar ao poder, prometendo combater a corrupção. Seria o primeiro passo para a recuperação de parte do dinheiro roubado nos 24 anos de governo de Moi, que renderam ao Quênia a fama de um dos países mais corruptos do mundo. Mas, logo depois do início da investigação, o governo de Kibaki também se envolveu num escândalo, conhecido como Anglo Leasing. Tratava-se da concessão de grandes contratos governamentais a companhias de fachada. Nenhum parente ou aliado próximo de Moi foi processado. Nenhum dinheiro foi recuperado. Três dos quatro ministros que renunciaram por causa do escândalo Anglo Leasing foram reempossados mais tarde. Na noite de quinta-feira, o governo queniano confirmou ter recebido o relatório da Kroll em abril de 2004. Mas o porta-voz Alfred Mutua afirmou que o documento era incompleto e impreciso e a Kroll não foi contratada para realizar mais nenhum trabalho. "Não consideramos que o relatório tivesse credibilidade. Ele se baseava em muitos boatos", afirmou Mutua. Ele acrescentou que o vazamento do relatório teve motivação política e insistiu que o Quênia trabalha com governos estrangeiros para recuperar o dinheiro roubado. "Parte do dinheiro está em contas bancárias na Grã-Bretanha. Pedimos ao governo britânico que nos ajudasse a recuperar os fundos, mas até agora ele se recusou." Na terça-feira, Moi, ainda influente no país, anunciou apoio a um segundo mandato de Kibaki. Gideon Moi é deputado e Philip Moi, empresário. Daniel Arap Moi, de 82 anos, não se pronunciou sobre o relatório.

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