Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Araújo admite que ainda não há perspectiva de mudança na Venezuela

Chanceler brasileiro vê fortalecimento do líder opositor Juan Guaidó, que reuniu-se na véspera com o presidente Jair Bolsonaro, apesar de não existir negociações com o governo de Nicolás Maduro

Mariana Haubert / Brasília, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2019 | 14h05
Atualizado 01 de março de 2019 | 15h15

BRASÍLIA - O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, afirmou nesta sexta-feira, 1º, que o Brasil continuará a não interferir nas negociações que a Venezuela realiza com os diversos atores internos ou com outros países. Ele disse também que o governo brasileiro ainda não tem um canal de diálogo com o regime de Nicolás Maduro, embora o presidente Jair Bolsonaro tenha dito nesta quinta que pode conversar com ele.

O chanceler reafirmou a posição do Brasil de não intervenção militar no país vizinho e voltou a destacar que as negociações devem ser feitas a partir do diálogo, até mesmo com países como a Rússia e a China, que são os dois principais aliados de Maduro no campo internacional.

"A gente está pronto para conversar, já disse isso outras vezes, se a gente puder ajudar China e Rússia especificamente a entenderem o que está acontecendo na Venezuela, estamos prontos", afirmou.

Sobre a possibilidade do líder opositor Juan Guaidó ser preso ao retornar para o seu país, Araújo classificou a ideia como um ato "absurdo", mas disse que o Brasil ainda não tem uma resposta determinada para esta possibilidade. Guaidó deixou a Venezuela pela fronteira com a Colômbia nesta semana. Seu ato foi considerado ilegal pelo regime de Maduro e, por isso, ele poderá ser detido na volta. 

"Esperamos que isso não aconteça, seria um absurdo. Daí teríamos que ver no momento qual seria a reação nossa, coordenaríamos também com o Grupo de Lima, como temos feito. Espero que não chegue a esse momento, seria um absurdo completo", disse. 

Questionado sobre o que o Brasil poderia fazer de forma prática para ajudar na saída de Nicolas Maduro do poder, Araújo afirmou que o Brasil "tem uma atuação dentro do Grupo de Lima [que reúne países que reconhecem Guaidó como representante da Venezuela] em que cada vez mais a gente avança rumo à legitimação internacional do governo interino e mostrar a total ilegitimidade do regime de Maduro".

Segundo o chanceler, o Brasil também está atuando para que os representantes do movimento de Guaidó sejam reconhecidos pela comunidade internacional como os legítimos representantes da Venezuela. A Organização das Nações Unidas ainda não reconhece o líder opositor como presidente interino, mas cerca de 50 países já declararam que o reconhecem nesta posição, incluindo o Brasil. 

Araújo afirmou que a visita de  Guaidó ao Brasil, na quinta, foi importante para sedimentar as relações entre o governo brasileiro e o grupo oposicionista do país vizinho.

"A visita de Guaidó nos deixou mais confiantes de que ele pode ser o centro desse avanço rumo à redemocratização da Venezuela. [...] Foi fundamental porque ele nos mostrou que é uma alternativa séria, capaz de transformar o seu país", disse.

Araújo afirmou que o Brasil continua disposto a viabilizar novas tentativas de envio de ajuda humanitária, mas elas dependerão de como caminha a situação na fronteira com o Brasil. "Dependeria de uma articulação para que finalmente possa entrar ajuda", disse. 

Segundo o chanceler, porém, ainda não há data para uma nova tentativa. Ele, no entanto, ressaltou que as 200 toneladas de alimentos que não puderam ser entregues nas primeiras tentativas não são perecíveis e têm prazo de validade longo.

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