Antonio Lacerda/EFE
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Araújo critica ‘globalismo’ e promete reorientar atuação do País na ONU

Chanceler diz que lutará para reverter situação de passividade da diplomacia brasileira, desburocratizará as embaixadas no exterior e negociará acordos bilaterais e multilaterais

Lu Aiko Otta / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2019 | 20h08
Atualizado 03 de janeiro de 2019 | 14h56

O ataque ao globalismo foi a principal linha do discurso do embaixador Ernesto Araújo ao assumir o comando do Ministério das Relações Exteriores. Nessa linha, afirmou que reorientará a atuação da diplomacia na ONU, “em favor do que é importante para o Brasil, não as ONGs”. 

Ao descrever a atual política externa brasileira, o chanceler disse que ela é dedicada apenas a “exportar produtos e atrair investimentos, mas quieta, pacífica, sem poder para nada”. Para ele, o Brasil se limita a dizer o que é esperado dele, para se enquadrar na “piscina sem água” da ordem global. Agora, o ministro prometeu um Brasil “que sabe quem é”. 

“O globalismo se constitui em ódio”, afirmou. “É contrário à natureza humana.” Ele citou como ideias “da mesma raiz ideológica” a noção de que não há diferença entre homem e mulher e os fetos são amontoados de células. “Vamos defender a soberania, a liberdade de expressão, a liberdade de crença, da internet, as liberdades políticas e os direitos da humanidade, o principal dos quais talvez seja o direito de nascer.”

Num discurso com citações em grego, tupi, espanhol e latim, o chanceler listou países com os quais o Brasil buscará alianças sem pedir permissão à ordem global. “Admiramos quem luta, por isso admiramos o exemplo de Israel, que nunca deixou de ser nação mesmo quando não tinha solo, em contraste com algumas nações de hoje que, mesmo tendo solo, igreja, castelo, já não querem ser nação.” Ele citou também os Estados Unidos, que “hasteiam sua bandeira e cultuam seus heróis”.

Ele disse ainda admirar os países latino-americanos que se libertaram dos “regimes do Foro de São Paulo”, os africanos que “estão construindo uma África pujante e livre”, os que lutam contra a “tirania” na Venezuela. Também citou países europeus que elegeram governos de direita, como Itália, Hungria e Polônia. 

“O problema do mundo não é a xenofobia, e sim a oikofobia”, afirmou, explicando que esta última é o ódio ao próprio lar. Outro problema que deveria preocupar, disse o chanceler, é a teofobia, a aversão a Deus. “Para destruir a humanidade é preciso acabar com as nações e afastar o homem de Deus. E é isso que estão tentando, e é contra isso que nos insurgimos.”

No exercício de uma política externa soberana, o chanceler orientou seus quadros a ouvir “menos CNN e mais Raul Seixas” e afirmou que o Itamaraty mudará a forma como fará negócios. A pasta estará próxima do setor produtivo nacional como nunca esteve, prometeu. As embaixadas e consulados terão seu trabalho desburocratizado e atuarão como escritórios de comércio.

Na avaliação do chanceler, o Brasil fez muitas negociações comerciais como se estivesse “implorando” acesso a mercados no exterior, quando deveria estar negociando “em posição de força, como o maior produtor de alimentos do mundo”. Outros acordos que o Brasil busca, disse ele, seguem um modelo dos anos 90.  O chanceler afirmou que pretende negociar acordos bilaterais e multilaterais. Entre estes, citou uma nova agenda da Organização Mundial do Comércio na qual o Brasil ainda não está engajado.

O novo ministro prometeu ainda resolver problemas que hoje afligem os diplomatas, referentes à carreira. Ele negou que pretenda nomear pessoas de fora da carreira diplomática para postos de chefia, ao contrário do que alguns interpretaram a partir de uma Medida Provisória (MP) assinada ontem pelo presidente Jair Bolsonaro que modifica a estrutura da administração pública federal.

Mais cedo, pelo Twitter, ele esclareceu que alterou as regras para nomeação de pessoas para os postos de chefia no Itamaraty para, “com base nos princípios de eficiência administrativa e meritocracia, otimizar a designação de servidores do Serviço Exterior para cargos em comissão e funções de chefia.” Mas a mudança não muda nem flexibiliza a nomeação, para esses cargos, de pessoas que não sejam da carreira diplomática.

Durante sua fala, Araújo afirmou que o professor Olavo de Carvalho é, depois do presidente Bolsonaro, o principal responsável pela transformação em curso no Brasil. Quando ele afirmou que o novo presidente está “libertando o Brasil por meio da verdade” e ele vai “libertar a política externa e libertar o Itamaraty”, apenas alguns poucos diplomatas aplaudiram.

Durante o discurso, era possível observar os diplomatas se entreolhando. . Enquanto o discurso do ex-chanceler Aloysio Nunes, foi longa e entusiasticamente aplaudido em pé, o final da fala de Araújo, encerrada com um “anuê Jaci”, um Ave Maria em tupi, foi aplaudido por uma plateia sentada, num primeiro momento. Em seguida, os diplomatas se levantaram.

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