Área da Odebrecht é saqueada em Trípoli

Instalações da construtora brasileira tornaram-se bases militares das forças de Kadafi durante guerra civil

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2011 | 00h00

TRÍPOLI

A abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança das Nações Unidas que autorizou a intervenção da Otan foi interpretada pelos líbios como apoio ao regime de Muamar Kadafi, mas não impediu que as instalações da Odebrecht em Trípoli fossem saqueadas por milícias leais ao ditador, que as transformaram em bases durante a guerra civil.

Os milicianos roubaram computadores, aparelhos de ar condicionado, automóveis, ônibus, e talvez caminhões e motoniveladoras, além de revirar e espalhar pelo chão os documentos em um conjunto de escritórios da empresa no bairro de Hadba al-Khadra, sul de Trípoli.

Quatro vigias no complexo murado de edifícios contaram ao Estado que os milicianos tomaram o local no início de abril. Eram cerca de cem e trouxeram veículos militares, fardas, armamentos e munição. Caixas de foguetes antitanques e de balas de fuzis ainda estão espalhadas pelos pátios. Os 12 vigias, que se dividem em 3 turnos, continuaram trabalhando lá. Mas algumas vezes, à noite, os milicianos os mandavam ir para casa. "Não queriam que os víssemos saqueando", explicaram.

A milícia que ocupou as instalações da Odebrecht era formada por "voluntários" civis, a quem as brigadas de Kadafi deram armas, veículos, fardas e licença para saquear, estuprar e matar em defesa do regime.

Muitos eram criminosos comuns, soltos das prisões na noite de 20 para 21 de fevereiro, quando parecia que os rebeldes tomariam Trípoli. Os milicianos ficaram nas instalações da empresa até 21 de agosto, quando os combatentes rebeldes avançaram sobre a capital.

Nas 111 salas, só sobraram os cabos de fibra óptica dos computadores. Todos os aparelhos de ar condicionado foram arrancados. Praticamente nenhuma pasta de documentos, cadeira e mesa ficou no lugar. Também foram levados os fogões das cozinhas industriais, tanto do conjunto de escritórios quanto do alojamento, outro amplo complexo com capacidade para 1.920 operários, em Sidra, também no sul da capital.

No alojamento ainda estão dezenas de caixas de fardas, botas e mochilas militares, com alforjes e cantis. Também nos pátios e ruas do alojamento estão espalhadas caixas vazias de armas e de munição.

O alojamento parece uma cidade fantasma. Seus portões estavam fechados quando o Estado chegou, e aparentemente, ninguém havia entrado lá depois da saída dos milicianos. Mais adiante, na mesma rua, está a garagem da Odebrecht. Restaram ali apenas cinco ônibus e uma picape.

Segundo os vigias, os milicianos levaram 21 ônibus e 5 automóveis da empresa. Eles não sabem o que aconteceu com os caminhões, motoniveladoras e outras máquinas.

A Odebrecht estava construindo dois terminais para o aeroporto de Trípoli e um trecho de 24 quilômetros do terceiro anel viário em torno da capital. As obras estavam orçadas em US$ 1,4 bilhão.

Entre os dias 21 e 26 de fevereiro, a empresa retirou da Líbia todos os seus 5 mil funcionários, incluindo 187 brasileiros. O Estado tentou ouvir a Odebrecht, mas a empresa não se pronunciou oficialmente.

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