Jim Huylebroek/The New York Times
Jim Huylebroek/The New York Times

Área rural do Afeganistão tem queda de violência após domínio do Taleban

Maior parte do interior do país ainda guarda marcas da guerra, mas viu batalhas campais e tiroteios desaparecerem após tomada de poder pelo grupo insurgente

Jim Huylebroek, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 10h00

CHAK-E WARDAK, Afeganistão – A cem quilômetros por estrada de terra a sudoeste de Cabul, os vestígios da mais longeva guerra dos Estados Unidos são abundantes. Postos saqueados se espalham pelo topo das colinas e carcaças de picapes da polícia e Humvees queimados se amontoam pela estrada que serpenteia pelos vales.

As paredes de um prédio do governo local, construído pelos americanos em Chak-e Wardak, distrito da província de Wardak, estão marcadas por balas e foguetes disparados recentemente. Escavaram-se buracos nas paredes, para abrir posições de tiro, e apenas algumas das janelas de vidro permanecem intactas.

Mas as rajadas de rifle, outrora constantes, não se ouvem mais.

Nos últimos anos, dirigir para longe de Cabul, capital do Afeganistão, evocaria o medo dos postos de controle do Taleban, nos quais jovens combatentes tiravam passageiros dos carros em busca de funcionários do governo ou membros das forças de segurança. Ser pego no meio de um tiroteio entre os dois lados em conflito sempre foi um risco.

Mas desde a tomada do Taleban, em meados de agosto, a maior parte do interior do Afeganistão viu uma queda substancial na violência. Onde ataques aéreos e batalhas campais seriam comuns, os canhões silenciaram. Quase todos os pontos de controle desapareceram.

Em seu lugar se encontram uma crise humanitária e um novo governo do Taleban que às vezes parece tão desacostumado a governar quanto muitos afegãos se desacostumaram a viver sem guerra.

Milhões de afegãos estão enfrentando um inverno de escassez de alimentos, com até um milhão de crianças em risco de morrer de fome na ausência de um esforço de socorro internacional imediato, disseram autoridades das Nações Unidas.

Para agravar a situação, os preços dos alimentos básicos aumentaram drasticamente, e muitas famílias afegãs estão sendo forçadas a se contentar com arroz e feijão em vez de frango e outras carnes.

Por enquanto, porém, no distrito de Chak-e Wardak, uma colcha de retalhos de pomares de maçãs e aldeias, assim como em muitas outras regiões do país, sente-se um alívio generalizado por causa do fim dos combates e do retorno a algo parecido com a vida normal.

No segundo andar do centro administrativo distrital, o recém-nomeado chefe da polícia taleban, Qari Assad, tem de se sentar numa cadeira velha. Em sua mesa, repousa uma Kalashnikov ainda mais antiga e uma bandeira improvisada do Taleban, com um “Kalima Shahada” – o texto do juramento islâmico – feito à mão.

Numa quinta-feira semanas atrás, Assad, de barba preta e turbante, tinha acabado de tomar seu segundo copo de chá verde quando dois irmãos do distrito vizinho de Sayedabad chegaram com uma queixa.

“O homem que se casou com minha filha não nos disse que já tinha esposa”, disse Talab Din, passando os dedos pela barba grisalha. “Minha filha me disse para deixar para lá, disse que estava feliz com ele. Mas agora ele bateu nela e a esfaqueou na perna. Viemos aqui para resolver essa questão”. Ele não demonstrava medo do novo chefe de polícia, já estava acostumado com o Taleban.

“Trataremos desse problema imediatamente”, assegurou Assad ao pai.

Muito antes de sua tomada total, o Taleban já governava e oferecia justiça rápida em muitas regiões, geralmente por meio de seu próprio sistema judicial. Chak-e Wardak, junto com muitas partes do Afeganistão rural, está sob seu controle há dois anos.

Mas ainda não se sabe se o movimento, que reprimiu brutalmente os protestos contra seu governo em áreas urbanas, conseguirá se transformar numa estrutura de governança sólida o suficiente para lidar com os problemas subjacentes à crescente crise humanitária do país.

Mais a oeste no vale, outra bandeira do Taleban tremulava no topo da mais antiga barragem hidrelétrica do país. Construída em 1938, suas turbinas forneciam eletricidade para regiões vizinhas de Wardak, além da província de Ghazni e até mesmo partes da província de Cabul, mas a falta de manutenção as transformou em sucata.

Enquanto uma nômade tocava suas ovelhas pela represa, meninos afegãos se revezavam para pular na água, um alívio bem-vindo do sol escaldante.

No alto da colina fica a casa da família Ayoubi, que foi deslocada para outra aldeia há dois anos, quando os combates se intensificaram. No início de agosto, a família retornou após o fim do conflito para uma casa rodeada por um exuberante jardim, repleto de abóboras plantadas.

Durante um almoço de arroz, tomate e milho, Abdullah Ayoubi, o filho mais velho, falou sobre as atrocidades que ocorreram no vale. “Não há dúvida de que o Taleban também é corrupto, mas nem se compara aos militares”, disse ele. “Eles não só tiravam dinheiro das vans e caminhões. Se alguém tivesse barba grande, eles diziam que era do Taleban e machucava a pessoa”.

Ayoubi disse que seu irmão Assad estava na nona série quando os exércitos afegão e americano chegaram ao distrito em busca de um comandante do Taleban que tinha o mesmo nome. Acabaram pegando seu irmão, disse ele, e o levaram para a prisão de Bagram, famosa por seu tratamento severo com os prisioneiros, onde ele foi torturado.

“Levamos quatro meses para encontrá-lo”, disse Ayoubi. “Quando fomos visitá-lo em Bagram, ele gritava comigo, com correntes nas pernas e algemas nos pulsos”.

Assad foi libertado depois de dezoito meses. Como estava muito zangado, disse Ayoubi, acabou se juntando a um comandante local do Taleban chamado Ghulam Ali. Ele se especializou em disparar Kalashnikov e lançadores de foguetes. Em seu telefone, Ayoubi trazia uma foto granulada, tirada de um vídeo. A imagem mostrava um homem irreconhecível envolto em fogo, fumaça e poeira.

Neste vale agora silencioso, o principal marco é um hospital fundado em 1989 por uma alemã, Karla Schefter. Hoje o hospital é administrado pelo Comitê de Ajuda Médica e Humanitária do Afeganistão, que depende de doações privadas.

Faridullah Rahimi, um médico da unidade, disse que em seus 22 anos no hospital, esta era a primeira vez que não recebia pacientes com ferimentos de guerra.

“Pessoas vêm de muito longe para procurar tratamento aqui em Chak”, disse o Dr. Rahimi, de pé no pátio verdejante do hospital. “Atendíamos civis, soldados do governo e combatentes do Taleban, nunca tivemos problema”.

Por enquanto, disse o médico, o hospital tinha suprimentos médicos suficientes, mas com a maioria dos bancos fechados, não havia dinheiro para comprar mais suprimentos ou pagar salários.

Mesmo assim, disse o Dr. Rahimi, o hospital continuaria operando da melhor maneira possível. “Os regimes vêm e vão, mas o hospital fica”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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