Arena foi palco de discurso histórico

Em fevereiro de 1990, Mandela anunciou no Soccer City, reformado para o Mundial de 2010, as bases contra o apartheid

JOHANNESBURGO, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2013 | 02h06

O mesmo estádio Soccer City - onde ocorreu ontem a homenagem fúnebre a Nelson Mandela marcada pela chuva e por discursos que entediaram um público abaixo do esperado - foi palco de um dos mais importantes discursos do homem que liderou a vitória sobre o apartheid, logo após ele deixar a prisão.

Em 13 de fevereiro de 1990, Mandela anunciou a 120 mil pessoas que lotavam a arena - reformada para o Mundial de 2010 - os princípios que fariam o Congresso Nacional Africano (CNA) - e a África do Sul - superar as leis raciais.

O discurso de Mandela no Soccer City teve dois pilares: de um lado, duros ataques contra o apartheid e em defesa de uma África do Sul onde brancos e negros tivessem os mesmos direitos; de outro, a garantia de que o CNA não faria a guerra contra a minoria branca, caso chegasse ao poder.

"Disse, em 1964, que eu e o CNA somos tão contrários à supremacia negra quanto à supremacia branca", afirmou Mandela, falando com a voz calma, de terno e gravata, sobre um palco montado no gramado. "Temos de mostrar claramente nossa boa vontade aos compatriotas brancos e convencê-los, por meio de nossa conduta e argumentos, que uma África do Sul livre do apartheid será um lar melhor para todos nós."

Mandela também fez um apelo por união e disciplina entre os movimentos negros, que há época se enfrentavam nas ruas. "Exorto da forma mais firme que posso para agirmos com a dignidade e a disciplina que a nossa justa luta por liberdade merece. Peço ao nosso povo que se una contra aqueles que perpetram a violência." Em seguida, o líder concluiu: "Vamos agir com visão política e dar passos audaciosos para encerrar essa violência sem sentido".

"Madiba" exortou a polícia a abandonar os métodos do apartheid e disse que, contra esse tipo de repressão à maioria negra, a violência poderia ser legítima. Ao mesmo tempo, ele dava garantias de que as leis de segregação causam imensos prejuízos econômicos a todos os sul-africanos, negros ou brancos. "Nossa história mostrou que o apartheid impediu o crescimento, criou desemprego em massa e inflação descontrolada, que prejudicaram o padrão de vida de nós, negros e brancos".

Ontem, o ambiente era bem distinto. A manhã em Johannesburgo começou com chuva fina, mas permanente, e com temperatura que variou entre 13ºC e 15ºC. No centro da cidade e em especial na região do entorno a Soccer City e ao bairro mítico de Soweto, os congestionamentos se multiplicaram. Para completar, um forte esquema de segurança nas imediações do estádio obrigou a multidão a caminhadas de mais de um quilômetro sob chuva e não raro sobre o barro. O resultado é que não mais de 65% das dependências do estádio foram tomadas pelo público - quando se imaginava entre 80 mil e 90 mil sul-africanos. / ANDREI NETTO E RAFAEL MORAES MOURA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.