Argel teme novo vizinho

A Líbia sai lenta e dolorosamente do inferno. Ou melhor, dos infernos. O primeiro foi o que os líbios experimentaram durante 40 anos da tirania de Muamar Kadafi. O segundo foi a guerra de seis meses travada pelos rebeldes, com o apoio da Otan - ou seja, sobretudo da França e da Grã-Bretanha, não dos EUA, hoje mais prudentes por causa dos fiascos iraquiano e afegão - contra os mercenários e o Exército de Kadafi. Com Trípoli agora nas mãos dos insurretos, a Líbia entra na era pós-Kadafi.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Uma das mulheres do ex-ditador, Safia, e três de seus filhos foram "exilados/infiltrados" na Argélia - nenhum deles, personagem de peso no regime do pai. Mas os rebeldes estão chocados. Acusam a Argélia de ter sempre apoiado o regime do tirano Kadafi, e agora também.

Por que a Argélia seria amiga de Kadafi? Porque o presidente Houari Boumedienne, ele também um tirano, mais refinado do que Kadafi, teme que a "primavera líbia" contamine a Argélia.

Outra explicação é que os argelinos suspeitam que os islâmicos tenham se infiltrado entre os revoltosos de Benghazi e Trípoli - e mais especificamente no CNT (Comitê Nacional de Transição) que administra os combates contra Kadafi. Ocorre que o líder argelino, Boumedienne, assim como o coronel Kadafi, é inimigo feroz dos islâmicos da Al-Qaeda. Portanto, teme que a nova Líbia, a Líbia livre da era pós-Kadafi, acabe nas mãos dos islâmicos.

Esse temor não é novo. Depois da eclosão da revolução líbia, os ocidentais, bem como os ditadores africanos, temeram que os islâmicos conseguissem gangrenar as revoltas e assumissem o comando dos países libertados. Esses temores seriam justificados? Impossível dar uma resposta clara.

Nesses períodos de grande conturbação, todos os acontecimentos são tramados na penumbra. Mal é possível distinguir entre os 50 integrantes do CNT alguns islâmicos - e mais ainda entre os chefes militares, que conseguiram transformar uma "multidão de pés descalços" em soldados determinados.

Por exemplo, o homem que ganhou a batalha final contra Kadafi, Abdelhakim Belhai, novo chefe de Trípoli, é um islâmico "de boa índole". Ele faz parte do Grupo Islâmico de Combate na Líbia (GICL), armado em 2007 por Osama bin Laden. Abdelhakim Belhai treinou no Afeganistão.

Outro chefe militar seguiu um percurso paralelo: é um dos chefes da revolta inicial em Benghazi, Ismail al-Salabi, que comanda uma "katiba" de 5 mil soldados e usa uma barba negra. Al-Salabi, entretanto, nega ter participado do grupo "islâmico" e ter ido ao Afeganistão. Ele jura até mesmo que na sua "katiba" há evidentemente pessoas que aderiram ao islamismo, mas trata-se de jovens desesperados que o abraçaram a fim de lutar contra a pobreza, a miséria, a corrupção e a falta de democracia da era Kadafi (sugestão cômica, que volta a apresentar os islâmicos como "democratas").

Se é incontestável que entre os líderes "anti-Kadafi" é possível encontrar frequentemente islâmicos em cargos elevados, por outro lado, parece que entre os jovens líbios que aderiram à revolução os islâmicos representam apenas uma pequena parcela.

Os especialistas explicam que é toda uma "questão de geração". Os homens de 40 anos para cima, cuja formação ocorreu no Afeganistão ou no Paquistão, continuam impregnados pela pregação radical da Al-Qaeda. Os jovens, seduzidos pelo modelo ocidental, seriam mais democráticos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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