Argentina agora quer relações carnais com o Brasil

O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Carlos Ruckauf, pediu nesta quarta-feira a ajuda do Brasil na tarefa de angariar apoio externo, particularmente do Fundo Monetário Internacional (FMI), ao plano econômico em implementação no país. Em sua primeira visita ao exterior como chanceler, Ruckauf frisou que essa missão será posta em marcha somente depois de a Argentina ?arrumar a casa?, ou seja, da conclusão da mudança do regime cambial, da definição do grau de ajuste fiscal necessário e da conquista do apoio da população. ?Expressamos ao presidente Fernando Henrique Cardoso que, uma vez que a Argentina conclua o seu plano, vamos apresentá-lo ao FMI e aos demais organismos multilaterais. Para nós, a palavra de um estadista, como Fernando Henrique, é muito importante, e sempre encontramos a compreensão dele?, afirmou Ruckauf, depois de reunir-se com FHC, com os ministros brasileiros das Relações Exteriores, Celso Lafer, da Fazenda, Pedro Malan, e da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, e com a equipe técnica do Itamaraty. ?O que importava para nós era ler nos olhos e na boca de FHC a sua vontade de nos dar o apoio.? Nos últimos dias, técnicos do Ministério da Fazenda haviam alertado a nova equipe econômica da Argentina sobre a necessidade de iniciar imediatamente conversas com autoridades de outros países e de organismos internacionais, com agentes do mercado financeiro e com formadores de opinião, para garantir a máxima boa vontade possível com as medidas que serão adotadas por Buenos Aires. Segundo Ruckauf, o governo argentino prefere ?organizar a casa, concluir o plano econômico e aprovar o Orçamento para 2002? antes de buscar o apoio externo, com a ajuda do Brasil. As conversas mundo afora, conforme explicou, começarão somente depois que a Argentina tenha a certeza das medidas necessárias e de que elas serão efetivamente implementadas. Por enquanto, a equipe econômica argentina sabe que o ?caminho final é o da liberdade econômica e da flutuação da moeda?. Mas não sabe qual o exato ?suporte para agüentar? esse objetivo, e não pode nem mesmo definir um prazo para alcançá-lo. Conforme explicou, a situação argentina é distinta daquela enfrentada pelo governo brasileiro em 1999, quando desvalorizou o real e adotou o câmbio flutuante. Ele deixou claro que o presidente Eduardo Duhalde assumiu um país em situação de ?catástrofe econômica?, de abandono antecipado do poder pelo governo anterior e com o recorde de cinco presidentes em duas semanas. A situação atual, para ele, é suficientemente complexa para levar o governo argentino a ?dar um passo de cada vez? e, portanto, a dar a seu tempo as repostas esperadas pelo FMI, por investidores e credores estrangeiros e por outras Nações. Ruckauf teve o cuidado de reafirmar que a Argentina não está ?renegando a sua dívida externa?, mas apenas indicando que não conta com meios de pagar os compromissos em vencimento da forma como foram negociados. Também deixou claro que seria impossível, nesse momento, manter as tarifas de serviços públicos indexadas ao dólar ? o que significaria um aumento no desembolso dos argentinos, em pesos, para pagar suas contas e uma forte pressão inflacionária. ?A Argentina não está abandonando a sua integração com o mundo, mas tomando as medidas para enfrentar uma situação de terapia intensiva.?, afirmou. ?Assim que sairmos dessa UTI, o mundo terá as nossas respostas. A Argentina está dizendo que não pode pagar dessa forma (a dívida externa), mas não está renegando os seus compromissos.? O ministro relatou que, nesta terça-feira, almoçou na Embaixada da Espanha em Buenos Aires. Ao longo de duas horas e meia, tentou explicar aos representantes dos países da União Européia na Argentina que as iniciativas tomadas são conjunturais e, portanto, atendem a uma circunstância complicada. Os governos europeus, particularmente o espanhol, fazem forte pressão sobre a equipe de Duhalde para que seja revista a decisão de desindexar as tarifas de concessionárias de serviços públicos, que eram dolarizadas até a última segunda-feira. A medida prejudica em especial as empresas espanholas que investiram nesse setor na Argentina, como a Telefónica. ?As medidas conjunturais adotadas não significam que estamos violentando a nossa relação com o mundo. Significam que estamos avançando em uma realidade dramática, na qual é impossível transferir a desvalorização para as tarifas de água, de energia, de telefone e de luz pagas pela população?, afirmou o chanceler argentino. Leia o especial

Agencia Estado,

09 Janeiro 2002 | 18h08

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