Argentina ainda não tem programa de recuperação

Um dia depois de a Argentinaanunciar o calote da dívida externa e um pacote de medidassociais, ainda não se sabe ao certo qual será o programa pararecuperar a economia e tirar o país do caos em que se encontra."A grande questão é saber como eles vão tornar a Argentinasolvente", diz o consultor e ex-presidente do Banco Central(BC) Affonso Celso Pastore. Ele resume o pacote anunciado comoum conjunto de "irracionalidades", exceto a moratória dadívida externa. Na análise de Pastore, o país estava há muitotempo insolvente e o novo governo simplesmente reconheceu isso. "Os argentinos precisam se sentar em torno de uma mesae decidir sobre um regime cambial, monetário e fiscal. Enquantonão fizerem isso, eles não vão sair da crise", afirma oex-presidente do BC. Ele acrescenta que, antes de ter umprograma para recuperar o país, não faz sentido anunciar planospara criar empregos. Também na avaliação do economista-chefe do Lloyds TSB,Odair Abate, a intenção do governo de usar o dinheiro dopagamento da dívida externa para criar programas que ampliem oemprego se resume em discurso político. "O programa tem de teruma básica técnica. Não é simplesmente suspendendo o pagamentoda dívida que se vai resolver o problema." Ele diz que amoratória, apesar de esperada, deve, a partir de agora, sernegociada com os credores sob a mediação de organismosinternacionais. O empresário Mário Amato, presidente emérito daFederação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), achaque as medidas são populistas e conciliatórias, visando abafar asituação social do país. "No momento isso é possível, masdepois vai agravar a crise. Tenho muito respeito pela Argentina,mas US$ 450 é um salário mínimo de país rico." De acordo com o consultor da MA Associados, FlávioNolasco, as medidas sociais anunciadas são apenas cosméticas. Onão pagamento da dívida externa, segundo ele, já era esperadopelo mercado. "O coração das medidas é a terceira moeda, criadapara cumprir as funções que não podem ser desempenhadas pelopeso, que constitucionalmente está atrelado ao dólar", destacao economista. O ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas entende queseria melhor se a Argentina desvalorizasse o peso, em vez deemitir uma terceira moeda que deve nascer desvalorizada. "Oplano argentino é aos poucos tirar o peso de circulação, sem ofim da paridade com o dólar, e deixar posteriormente só ostítulos patacones e Lecops como a nova moeda desvalorizada emrelação ao dólar." Para Freitas, esses títulos, que já sãonegociados com deságio, serão posteriormente unificados em umnova moeda argentina. "O que os argentinos estão fazendo, tantoem relação à moratória, quanto em relação à moeda, é ganhartempo, porque eles terão de obrigatoriamente negociar a dívidacom os credores e ter uma moeda desvalorizada em relação dodólar." O economista-chefe da Crédit Lyonnais Securities Asia,Dalton Gardimam, diz que a estratégia não difere das emissões detítulos pelo governo federal e pelas províncias, como as Lecops."É uma medida que afeta ainda mais a credibilidade do governo.Imprimir dinheiro é a primeira idéia do cardápio populista."Gardimam diz que seria melhor desvalorizar o peso agora, aindaque seja algo doloroso. "Países ricos e pobres jádesvalorizaram a moeda. É assim que a competitividade daeconomia vai ser restaurada." Para Gardimam, uma moeda emitidasem lastro, sem responsabilidade fiscal, pode ser o caminho paraa volta da hiperinflação.Leia o especial

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