Argentina aprova antecipação de eleições que deve favorecer Cristina

Por 42 votos a favor e 26 contra, Kirchners mostram força e conseguem passar votação de outubro para junho

Efe e AFP , BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2009 | 00h00

O Senado argentino aprovou ontem, por 42 votos a favor e 26 contra, o projeto de lei que antecipa para 28 de junho as eleições legislativas previstas inicialmente para 25 de outubro. A proposta foi encaminhada ao Congresso pela presidente Cristina Kirchner no dia 16 e já havia passado na Câmara. "Ninguém nega que há uma situação de emergência e o governo está respondendo a ela", disse o senador Nicolás Fernández, da coalizão governista.Cristina justificou a proposta sob a alegação de que a Argentina precisa se ver livre o quanto antes do clima de tensão política que precede as eleições para enfrentar os efeitos da crise global com serenidade.Analistas e opositores, porém, veem na manobra uma forma de tentar garantir que os governistas tenham um bom desempenho nas eleições. "A antecipação da votação é parte do problema e não da solução", disse o senador opositor Samuel Cabanchik.Com a popularidade do governo em queda e a perspectiva de uma piora na economia, de junho a outubro as chances eleitorais dos aliados de Cristina podem ser substancialmente reduzidas. Além disso, ao antecipar as eleições o governo reduz o tempo que a oposição teria para se organizar. Será renovada metade das cadeiras da Câmara e um terço das do Senado. A votação tem sido vista como uma espécie de referendo sobre o governo e uma derrota seria avassaladora para Cristina. Na semana passada, o líder piqueteiro Emilio Pérsico chegou a dizer que ela poderia renunciar se seu partido perdesse, mas a informação foi desmentida por autoridades. Uma das grandes apostas do governo nas eleições legislativas é o marido de Cristina, o ex-presidente Nestor Kirchner, visto como o responsável pela recuperação do país após a crise de 2001. Kirchner deve se candidatar ao Senado pela Província de Buenos Aires (apesar de a candidatura ainda não ter sido oficializada) e com o sistema de representatividade proporcional da Argentina pode arrastar outros peronistas para o Congresso."O governo quer usar a candidatura de Kirchner para tentar obter apoio no âmbito nacional", diz o analista Ricardo Rouvier. Nas últimas semanas, Kirchner participou de atos de governo em toda a Província de Buenos Aires. "Estou voltando com os sonhos e a força necessários para travar as batalhas que o nosso país precisa vencer", disse. "No dia 28 de junho, o povo escolherá entre a consolidação do nosso modelo e o retrocesso."DIFICULDADES POLÍTICASA desaceleração econômica enterrou definitivamente o otimismo que marcou o governo Kirchner (2003-2008), quando o crescimento econômico superou os 7% anuais. Cristina foi eleita com a promessa de dar continuidade às políticas do marido, mas logo de cara embrenhou-se num conflito com ruralistas por causa de impostos sobre as exportações que, segundo analistas, foi um dos grandes erros de seu governo. Desde que assumiu, em 2007, a aprovação de Cristina despencou de 56% para 30%. Além disso, após o conflito com ruralistas, a base peronista do governo - coesa durante a gestão de Kirchner - começou a se dividir e sofrer deserções. Foi o vice-presidente e presidente do Senado, Júlio Cobos, por exemplo, quem derrubou, com seu voto de Minerva, o "tarifaço agrário" de Cristina no Congresso. Hoje, há poucas cidades do interior em que a presidente aparece sem ser vaiada. A inflação de 22% (índices não oficiais) e o aumento da criminalidade e da pobreza impulsionaram o descontentamento, agravado por escândalos de corrupção. No ano passado, a classe média voltou a organizar os panelaços - que marcaram a crise de 2001. Os sindicatos retomaram os protestos e até o setor ruralista nos últimos dias voltou a fechar estradas e organizar boicotes. Mais importante ainda, a oposição, até pouco tempo desorganizada, está se unindo para fazer frente aos Kirchners. Recentemente, o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, anunciou uma aliança com dois dissidentes peronistas: o ex-governador e ministro da agricultura Felipe Solá e o empresário Francisco de Naváez. JOGO POLÍTICONestor KirchnerEx-presidente argentino"Estou voltando com os sonhos e a força necessários para travar as batalhas que o nosso país precisa vencer. No dia 28 de junho, o povo escolherá entre a consolidação do nosso modelo e o retrocesso, entre avançar ou um dar passo para trás"Ricardo RouvierAnalista político"O governo quer usar a candidatura de Kirchner para tentar obter apoio no âmbito nacional"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.