Solly Boussidan/AE
Solly Boussidan/AE

Argentina cobra Brasil por permitir escala de voos britânicos às Malvinas

Viagens ocorreram pelo menos seis vezes no ano passado partindo de aeroportos brasileiros

Lu Aiko Otta / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2017 | 05h00

O governo argentino informou ontem que cobrou o Brasil pelo fato de aeronaves da Força Aérea britânica terem chegado às Ilhas Malvinas (Falkland, para os britânicos) pelo menos seis vezes no ano passado partindo de aeroportos brasileiros. Elas tiveram como destino a base aérea de Monte Agradable, ou Mount Pleasant, localizada no arquipélago. 

Em 2015, teriam sido 12 voos similares. “A chancelaria instruiu a Embaixada Argentina no Brasil a realizar gestões ante a chancelaria local a fim de transmitir preocupação por dita situação”, diz nota emitida pelo governo argentino. “Além disso, se recordou o compromisso brasileiro de não receber em seus aeroportos e portos aeronaves ou embarcações britânicos de guerra aquartelados em arquipélagos sob disputa em concordância com a posição adotada pelo Mercosul e Unasul.” 

Os países sul-americanos apoiam os argentinos em sua tentativa de recuperar a soberania sobre as ilhas. Durante a guerra travada pelos dois países em 1982, os britânicos tiveram o apoio dos chilenos.

A nota argentina informa ainda que, procurado, o Itamaraty reiterou o apoio do Brasil à Argentina na questão das Malvinas e informou que faria consultas ao Ministério da Defesa sobre os voos. A embaixada do Brasil em Buenos Aires, por sua vez, disse que os voos eram, provavelmente, de caráter humanitário ou motivados por emergências provocadas por problemas técnicos.

Procurada, a Aeronáutica brasileira, que integra a estrutura do Ministério da Defesa, informou ontem que estava “apurando as informações juntamente com outros órgãos envolvidos”. 

A iniciativa argentina de informar ao público que pediu explicações ao Brasil pelos sobrevoos dos aviões britânicos destoa do tom da visita que o presidente argentino, Mauricio Macri, fez a Michel Temer no início de fevereiro. Naquela ocasião, os dois frisaram a sintonia entre os dois países, principalmente em sua estratégia para reativar a economia pela via do comércio exterior. 

Fontes brasileiras da área diplomática repetiram justificativa que a nota do governo argentino atribui ao Brasil: os voos foram de caráter humanitário e a autorização para eles foi publicada no Diário Oficial da União. Não foi detalhado se o objetivo das escalas era reabastecimento de combustível ou também foram embarcados produtos para as ilhas. Também não ficou claro que tipo de ajuda humanitária seria necessária nas ilhas. Os habitantes do arquipélago recebem subsídios e incentivos do governo britânico e mantêm um padrão de vida alto para a região. 

Fontes do governo afirmaram que os voos não tiveram fins bélicos. Eles tinham finalidade logística, como transporte de mantimentos, e fizeram escala para reabastecimento no Brasil. Os acordos citados pelo governo argentino em nota, que proíbem o recebimento de aeronaves ou embarcações britânicos com finalidade bélica são informais, disse a fonte, mas têm sido cumpridos à risca. 

A nota do governo argentino surpreendeu a diplomacia brasileira. Essa questão não foi tratada na visita que Macri fez ao Brasil. “Nem é assunto para conversas entre presidentes”, comentou uma fonte.

O jornal La Nación publicou ontem que, diante da cobrança argentina, a diplomacia brasileira argumentou que não sabia dos voos. Segundo o jornal, a reclamação argentina de 2015 teve as mesmas respostas.

O conflito entre britânicos e argentinos durou 74 dias e terminou com a vitória dos britânicos. Morreram em batalha 650 argentinos e 255 britânicos. A invasão argentina ocorreu quando o regime militar (1976-1983) definhava, em uma tentativa de recuperar apoio popular.

 

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