Argentina complica diálogo da AL com Bush

Horas depois da renúncia do ex-ministroda Economia Domingo Cavallo, na quinta-feira passada, osecretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O´Neill, foiperguntado que conselhos estava dando às autoridades de BuenosAires. "Nenhum", respondeu ele. "Eu não estou dando-lhesconselhos".O secretário do Tesouro americano tem opiniões claras sobre oque a Argentina deve fazer. Um homem prático e direto, que fezcarreira e fortuna na indústria, O´Neill deixou claro o quepensa em várias declarações, ao longo dos últimos meses: osargentinos vivem além de seus meios, precisam entender-se com oFundo Monetário Internacional sobre reformas que coloquem aeconomia do país em bases correspondents à sua realidade e,enquanto não o fizerem, não devem contar com o apoio deWashington. A posição de O´Neill é, em essência, compreendida ecompartilhada pelas autoridades nas mais influentes capitais daregião.Mas o fato de ele dizer, como fez na quinta-feira passada, quenão tem conselhos a dar aos argentinos, é também sintomático dealgo mais do que a sinceridade ou, como preferem alguns, a faltade talento diplomático do secretário do Tesouro. Confrontada como colapso da terceira maior economia da América Latina, aadministração Bush, que assumiu o poder em janeiro passadoprometendo elevar a região ao topo de suas prioridades externas,lavou as mãos e adotou uma atitude que reflete as dúvidas sobrea disposição de engajamento dos Estados Unidos com a região.Dúvidas - Essas dúvidas já existiam antes dos ataques de 11 de setembroredirecionarem as energias de Washington para a guerra contra oterrorismo. Elas aumentaram, desde então. "Independentemente de quão importante a América Latina possaser, há uma questão de prioridades, e as prioridades no momentosão as da guerra contra o terrorismo", disse Milles Frechette,ex-embaixador dos EUA na Colômbia. Para o ex-ministro doComércio da Venezuela Moisés Naim, hoje editor da revistaForeign Policy, "o maior obstáculo que a América Latinaenfrenta hoje em Washington é o da invisibilidade".O problema foi ilustrado pela decisão do Senado, na semanapassada, de devolver formalmente à Casa Branca o processo denomeação de Otto Reich, um lobista cubano-americano eex-embaixador na Venezuela, para o cargo de secretário deEstado-adjunto para a América Latina. Os senadores da maioriademocrata, que bloquearam a confirmação de Reich, e váriosrepublicanos, consideram seu anticastrismo excessivo econtraproducente e questionam a legalidade de decisões que eletomou como ocupante de cargos politicos na administração Reagan.Por meritórios que sejam esses argumentos, o fato é que oimpasse dura há meses e a função mais visível da administraçãopara a América Latina permanece sem um titular. Trêsex-ocupantes do cargo alertaram recentemente a Casa Branca paraa interpretação negativa que o fato vem recebendo na região,especialmente quando já há senadores republicanos pedindo à CasaBranca que não persista com a nomeação de Reich e escolha outrapessoa para o posto.Outras decisões recentes do Congresso, algumas tomadas emconcerto com a administração, colocaram novas pedras no caminhodas relações entre os EUA e a América Latina. A negociação dovoto de um deputado da Carolina do Sul que garantiu a aprovaçãodo mandato de negociação comercial "fast track" na Câmara deRepresentantes, há três semanas, custou um compromisso derevogação de preferências que os EUA tinham dado às exportaçõesde têxteis dos países andinos e do Caribe. Além disso, aaprovação de uma lei prorrogando outras preferências comerciaisàs nações andinas não foi concluída pelo Congresso.Finalmente, numa ação que confirmou a relutância com que oCongresso americano vê a criação da Área de Livre Comércio dasAméricas, que é o principal projeto do executivo para a AméricaLatina, a Câmara de Representantes incluiu uma lista de centenasde produtos agrícolas "sensíveis" numa emenda da legislação"fast track" especificamente calculada para limitar o escopodas concessões americanas na ALCA. O presidente FernandoHenrique Cardoso disse que, se a legislação for "tomada ao péda letra, ela significa que não haverá a Alca".A esses problemas, acrescente-se que o sucesso militar dos EUAcontra o Taleban aumentou o espaço para os setores duros daadministração, que defendem uma estratégia mais agressiva emrelação à Colômbia, que não seria bem recebida na região, emostram crescentes sinais de impaciência com o presidente daVenezuela, o populista Hugo Chavez. Com o populismo em alta nãoapenas na Argentina, mas também no Brasil e mesmo no México deVicente Fox, a catástrofe econômica e a crise de governabilidadeem Buenos Aires acrescentam novos complicadores para o diálogoentre a administração Bush e a América Latina.Leia o especial

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