Argentina decreta estado de sítio

O governo da Argentina decidiu decretar estado de sítio no país, depois de um dia caótico, com as principais cidades transformadadas em cenário de batalhas. Os choques aconteceram entre desempregados que saqueavam supermercados e a polícia, que tentava impedi-los. Essa foi a pior jornada de caos social vivida pelo país desde os tumultos da hiperinflação de 1989. Foi também o dia mais sombrio desde que o presidente Fernando de la Rúa tomou posse, há pouco mais de dois anos. No fim do dia, diante do trágico saldo de centenas de estabelecimentos destruídos, um número indefinido de feridos e detidos e pelo menos um saqueador morto por um comerciante, o governo tomou a medida que limita a circulação das pessoas.Além dos saques a supermercados, houve protestos de comerciantes, aposentados e funcionários públicos contra a política econômica do governo. Em Córdoba, centenas de funcionários públicos entraram em choque com a polícia, e deixaram semidestruída a prefeitura da capital da província. Houve saques em Tucumán, Mendoza e Santa Fé. Na Grande Buenos Aires desempregados e pessoas empobrecidas atacaram supermercados nas cidades de Morón, Moreno, Don Torcuato, Lomas de Zamora, Banfield, Munro, Tapiales, Quilmes, Bernal, La Plata e José Paz.Alguns supermercados preferiram distribuir bolsas de alimentos para apaziguar as multidões e tentar evitar os saques. Em Fuerte Apache, um dos bairros mais perigosos de Buenos Aires, os comerciantes deixaram centenas de bolsas de comida no meio da rua. Na confusão para conseguir as bolsas, várias pessoas foram pisoteadas. A maior parte dos alimentos acabou destruída na correria.O país vive uma das maiores crises sociais de sua história. Mais de 40% dos argentinos são pobres - a maioria deles até há três anos pertencia à classe média - e 18,3% estão desempregados. O sistema de Previdência está em colapso, o governo federal deu o calote em seus fornecedores e o projeto de orçamento para 2002 prevê a demissão de mais de 24 mil funcionários públicos.Ovos - O presidente Fernando de la Rúa começou o dia afirmando que estava tudo "sob controle" e não havia motivos "para alarme". Pouco depois, o caos se espalhava pelo país. Em uma reunião convocada às pressas na sede da Cáritas, da qual participaram algumas das principais lideranças políticas, junto com representantes dos setores industriais, financeiros, sindicais e da Igreja Católica, De la Rúa analisou saídas para a crise dos saques.A reunião terminou sem definições. Ao sair da Cáritas, cabisbaixo e mudo, De la Rúa foi alvo de ovos da vizinhança, que o chamava de "traidor" e "palhaço". Ao voltar à Casa Rosada, De la Rúa afirmou que não iria declarar estado de sítio, mas foi obrigado a mudar de idéia no começo da noite. Considerado por analistas políticos como "o presidente mais fraco da história argentina", De la Rúa havia afirmado que os saques eram "casos isolados".Pânico - Os saques começaram de madrugada, quando 500 pessoas saquearam supermercados na cidade de Ciudadela, incluindo o pequeno comércio. Houve cenas similares nas primeiras horas do dia em San Miguel, onde a polícia reprimiu com balas de borracha e gás lacrimogêneo. Além de alimentos, a multidão levou eletrodomésticos e bebidas alcoólicas. Em Lanús, o comerciante Fabiano Miguel Angel viu, impotente, uma multidão destruir sua loja de eletrodomésticos. "Perdi 26 anos de minha vida neste lugar", dizia chorando.Depois do meio-dia, os saques se intensificaram, principalmente na Grande Buenos Aires. Em Ciudadela, a rede de supermercados Coto, uma das maiores do país, voltou a ser atacada. Alfredo Coto, o presidente da empresa, afirmou que seus empregados estavam defendendo os supermercados com paus, e haviam se entrincheirado atrás dos carrinhos de compras. "Nunca vi isso antes. É uma guerra de argentinos contra argentinos", disse.Até a cidade de Buenos Aires, que não sofria saques desde o caos econômico de 1989, entrou em pânico ontem. Mais de 700 pessoas rodearam uma filial do supermercado Jumbo no bairro de Villa Lugano. Em Villa Fiorito, na periferia sul da cidade, um comerciante de origem chinesa matou um homem que tentava saquear seu estabelecimento.O pânico chegou também ao microcentro da cidade. As lojas fecharam ao longo das Avenidas 9 de Julio e Santa Fé. Diante do Obelisco, símbolo da cidade, o McDonald?s fechou suas portas no meio da tarde. Na Avenida Entre Ríos, no bairro de San Cristóbal, o sentimento entre os pequenos comericantes era semelhante. Atílio, dono de um açougue, disse que vai defender seu comércio até a morte. "Se perder meu comércio, perco minha fonte de sustento. Posso morrer defendendo o lugar, mas levo junto quem vier me saquear. A polícia não vai nos ajudar mesmo."Román, dono de uma casa de relógios, acha que deveriam saquear a casa do ministro Cavallo. "Por que não vão na Avenida Libertador, sobem ao seu apartamento e levam seus móveis e dinheiro, que com certeza tem muito lá? Se vierem me saquear, estarão rapinando um trabalhador. Que ataquem quem tem culpa da situação."Leia o especial

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