Argentina divulga listas elaboradas durante a ditadura militar

Militares separavam nomes de opositores de acordo com 'grau de periculosidade'

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

07 de novembro de 2013 | 13h33

(Atualizada às 16h50) BUENOS AIRES - O Ministério da Defesa da Argentina divulgou nesta quinta-feira, 7, imagens de listas elaboradas durante a ditadura militar (1976-83) com o nome de pessoas consideradas "subversivas" pelo regime. As listas têm nomes de artistas, intelectuais e jornalistas apontados como pessoas com "antecedentes ideológicos marxistas".

O ministério afirmou que as listas estavam registradas em três atas que integram 1.500 documentos encontrados há uma semana no sótão do Edifício Condor, sede da Força Aérea. A ditadura confeccionou quatro categorias de listas classificadas de "F1" a "F4" de acordo com o grau de "perigo" que os intelectuais citados representavam para os militares.

As primeiras listas encontradas pertencem à categoria "F4", referente às pessoas mais perigosas, "com antecedentes ideológicos marxistas e que não deviam ingressas ou permanecer na administração pública". Na lista elaborada no dia 6 de abril de 1979 aparece o nome de 285 pessoas.

Outra lista, de 31 de janeiro de 1980, cita 331 pessoas. Este documento possui um aviso dos militares sobre os papeis: "devem ser incinerados".

Nas outras categorias, estão citadas as pessoas consideradas menos perigosas pelos militares. Na categoria "F3", os militares colocaram as pessoas que tinham "alguns antecedentes ideológicos marxistas" mas não estavam proibidas de ter "alguma promoção, concessões de bolsas de estudo, etc".

Na "F2", estavam os opositores do regime que "não tinham antecedentes que permitissem classificá-los desfavoravelmente do ponto de vista marxista". Os integrantes da lista "F1" não continham, na visão da ditadura, antecedentes ideológicos marxistas.

Entre os nomes registrados estão os do escritor Julio Cortazar, autor de "O jogo da Amarelinha"; da cantora Mercedes Sosa, muito popular na época por suas canções de protesto; da poeta Maria Elena Walsh, autora de canções infantis; dos atores Héctor Alterio e Luis Brandoni e do pianista Osvaldo Pugliese, militante do Partido Comunista. Pugliese comandava uma orquestra de tango cujos integrantes recebiam de forma equitativa o mesmo salário, medida trabalhista que horrorizava os integrantes do governo do general Jorge Rafael Videla.

As listas também têm nomes de jornalistas que foram perseguidos, como Tomás Eloy Martinez - que nos anos 90 publicou os best-sellers "Santa Evita" e "O voo da rainha" - e Rogelio García Lupo, que nos anos 60 foi um dos fundadores em Cuba da agência Prensa Latina, vinculada ao governo de Fidel Castro. Da lista de jornalistas, quatro estão desaparecidos.

As listas foram modificadas com o passar dos anos e, em 1982, foram drasticamente reduzidas, já que a ditadura previa ser necessário uma "transição" para um sistema democrático.

Mas os militares indicam que 46 pessoas jamais sairiam das listas. Entre os inimigos permanentes estavam o escritor e jornalista Tomás Eloy Martinez, o médico e ensaísta Florêncio Escardó e o diretor de cinema Fernando Solanas, entre outros.

 
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