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Argentina endurece medidas e sente falta de turista brasileiro

Governo teme contágio com cepa brasileira, mas comerciantes de Puerto Iguazú ignoram risco e pedem reabertura

Denise Paro, especial para o Estadão, e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

FOZ DO IGUAÇU - Fechada há mais de um ano, desde 16 de março de 2020, a Ponte Tancredo Neves que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú não deve ser reaberta tão cedo caso o contágio de coronavírus não seja freado no lado brasileiro. O governo da Argentina ignora apelos dos comerciantes e do setor turístico de Puerto Iguazú, município de 80 mil habitantes que amarga um prejuízo com a impossibilidade de receber brasileiros, acostumados a frequentar restaurantes e bares. 

Segundo o presidente da Câmara de Comércio da cidade, Joaquim Bonetti, pelo menos 20% dos 2.400 pontos comerciais da cidade fecharam. “Temos negócios com portas fechadas na cidade, mas no centro há diversos que já fecharam de forma definitiva”, diz Bonetti.

A Argentina impôs mais restrições a voos na semana passada. Argumentou que vizinhos vivenciam aumentos de casos, citando Uruguai, Paraguai e Brasil. No começo do ano, metade dos voos de ida e volta do Brasil já haviam sido cortados – agora, a nova redução é de 20%, pois a entrada de brasileiros está proibida, à exceção de residentes e parentes. A Argentina tem 2.218.425 casos de covid e 54.231 mortos. 

Na segunda-feira, 50 cientistas argentinos publicaram um documento pedindo o fechamento das fronteiras para evitar ou enfraquecer o avanço da cepa de Manaus. Eles afirmam que a redução dos voos não é suficiente e pedem quarentenas restritas para quem volte de lugares com novos casos. 

Eles alertam que se a cepa crescer, “pode ser como começar uma pandemia do zero e possivelmente pior”. A imprensa argentina noticiou ao menos quatro casos isolados da variante em pessoas que voltaram do exterior. 

O receio da escalada do vírus no Brasil vem mais das autoridades do que da própria população de Puerto Iguazú. São comuns afirmações de comerciantes e trabalhadores do turismo da cidade, onde ficam as Cataratas argentinas, de que não temem os brasileiros e querem a fronteira aberta com protocolos sanitários. 

Proprietário de um estabelecimento que vende frios e bebidas, Victor Enrique diz que o movimento está 50% abaixo do normal. Ele afirma que uma parcela da população não dependente dos turistas apoia as medidas, mas há insatisfação com o que ele chama de radicalização. Outros que não se importam com a rigidez do governo são que se beneficiam do contrabando de alimentos vindos de Foz do Iguaçu e, na contramão, vinhos e azeites argentinos, que continuam entrando em larga escala no Brasil. 

O infectologista argentino Hugo Pizzi, professor da Universidade de Córdoba, defende maior controle das fronteiras. Ele lembra que a conexão entre os dois países é muito íntima, o que pode facilitar a entrada das cepas brasileiras. “As fronteiras são muito porosas e a verdade é que muita gente passa sem controle. São centenas de caminhões do Brasil por todo o território argentino diariamente, outros atravessam o país, vão para o Chile e depois voltam.” 

O intensivista Clóvis de Almeida, que trabalha em Neuquén, na região da Patagônia argentina, diz que sente a população preocupada com o que ocorre no Brasil. “O povo argentino vê a pandemia no Brasil sem controle. Deveria ter havido medidas mais concretas, estratégicas, de períodos curtos e rotativos para diminuir o nível de contágio”, afirma. 

O especialista critica os extremos – uma Argentina completamente fechada por um período muito prolongado e um Brasil completamente aberto por tanto tempo. Para ele, são bem-vindas medidas como mais controle nas fronteiras e quarentena para quem entra no país. 

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