Argentina enfrenta semana decisiva

As igrejas argentinas foram nesta segunda-feira o cenário de um evento inédito. Pela primeira vez na História do país, por recomendação do Episcopado, padres e bispos convocaram seus fiéis a rezar pela salvação econômica da pátria.Enquanto no feriado do dia da Independência os argentinos pediam a Deus que fizesse o milagre até agora não conseguido pelo governo, a equipe do ministro da Economia, Domingo Cavallo, preparava o novo pacote de ajuste com o qual pretende acalmar os mercados e evitar uma ?semana negra?.Cavallo pretenderia obter uma redução de US$ 2 bilhões nos gastos públicos deste ano. Estes cortes atingiriam principalmente o PAMI (sistema previdenciário), a ANSES (sistema de aposentaoria), o ministério do Interior (que dispõe de verbas de ajuda para as províncias) e o ministério da Educação.Além destes órgãos federais, as províncias também estariam incluídas no forte ajuste fiscal. O ministro não entrou em detalhes sobre os novos cortes orçamentários e somente declarou que estavam sendo preparados decretos para a ?modernização? do sistema de aposentadorias e do Estado como um todo.Segundo o chefe do gabinete de ministros, Chrystian Colombo, as províncias terão que realizar um ajuste de US$ 1,3 bilhão, dos quais US$ 1 bilhão são referentes à província de Buenos Aires, a maior de todas, e US$ 300 milhões às restantes províncias.No entanto, Colombo afirmou que o ajuste não implicará demissão de funcionários públicos provinciais ou federais. O governo não especificou como serão feitos os cortes orçamentários.Os analistas calculam que os anúncios seriam feitos ainda nesta semana, já que os mercados exigem urgência em uma definição da crise argentina. O analista econômico Daniel Muchnik considera que ?esta é uma semana decisiva?.Enquanto isso, o governo manterá em stand-by ? até que o panorama político seja mais conveniente ? o plano de transferir a Cavallo maior poder.No fim da semana passada, a idéia do presidente Fernando De la Rúa era passar a subordinados políticos do super-ministro diversos órgãos federais e ministérios, como o sistema de aposentadoria, a Previdência e o ministério do Interior, para que Cavallo pudesse administrar mais diretamente os ajustes.No entanto, a forte reação de diversos setores dos dois partidos que formam a coalizão de governo Aliança UCR-Frepaso fez o presidente recuar temporariamente.Na cidade de Tucumán, o presidente De la Rúa comandou as celebrações do dia da Independência. Ali, De la Rúa, em uma inesperada visão crua da realidade ? que até agora não havia feito - afirmou que a independência do país ?está reduzida? e que ?a situação é comprometedora?.Segundo o presidente, a Argentina tornou-se um país ?pessimista?, que ?há anos espera um milagre?, e que ?depende do crédito para continuar funcionando?.Com um tom pouco costumeiro, De la Rúa perguntou-se: ?Como podemos falar em independência se temos de recorrer a empréstimos??No discurso, o presidente também afirmou que ?o país não soube administrar seus recursos. A União e as províncias gastam mais do que têm e assim comprometem nosso futuro?. No final, convocou a oposição para uma ?mesa patriótica?: ?Sou um presidente que precisa da ajuda de todos para tirar o país da crise. Não podemos esperar mais?.De la Rúa pretendia que todos os governadores das províncias argentinas estivessem presentes em Tucumán para dar um sinal de união política diante do establishment.De la Rúa somente pode contentar-se com a presença do governador de Tucumán, que era o anfitrião, além do governador de Catamarca.Em declarações ao jornal francês Le Tribune, Cavallo afirmou que não estava ?frustrado? pela falta de confiança dos investidores na economia argentina. ?Estou acostumado com este tipo de problemas?, disse Cavallo, que sustentou que quando lançou o plano de Conversibilidade em 1991, ?ninguém acreditava nele, e a taxa de risco do país não era de 1.000 pontos como agora. Ela quase chegava no infinito?.Cavallo afirmou que o sistema monetário argentino impede a desvalorização. Ele sustentou que a recessão terminará no último trimestre deste ano.

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