Argentina espera sexta-feira inquieta

Os analistas esperam uma sexta-feira "inquieta" para os mercados que sentiram ontem os efeitos da renúncia de Carlos Menem e de declarações duras do presidente eleito, Néstor Kichner. Embora os analistas não contassem, inicialmente, com um impacto nos mercados provocado pelo ruído político, o dólar subiu seis centavos (2,87-venda e 2,82-compra) e a Bolsa de Buenos Aires registrou uma leve baixa com destaque para altas de empresas construtoras.Os investidores não gostaram do duro tom utilizado por Kirchner para criticar grupos econômicos, banqueiros e empresários, tanto em seu primeiro discurso, no dia da renúncia de Menem (quarta-feira), quanto em entrevista à televisão ontem. Um analista chegou a comparar Néstor Kirchner com o velho estilo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva."Como pode ser? Kirchner assistiu à trajetória de Lula e suas transformações para chegar à Presidência, foi ao Brasil, recebeu apoio de Lula, e parece que não aprendeu nada!", exclamou em tom de preocupação, a mesma demonstrada pelos investidores que preferiram posicionar-se em dólares ou em papéis de empresas construtoras ou vinculadas ao setor, já que Néstor Kirchner promete um grande plano de obras públicas. Para o governo, a inquietude do mercado cambial caiu como uma luva porque em somente dois dias, o dólar subiu 2,87% e o Banco Central comprou menos divisas. Para sustentar o preço da moeda, o BC vem realizando compras diárias de até US$ 170 milhões de dólares, mas ontem comprou somente US$ 11,5 milhões, ante US$ 12 milhões na quarta-feira. As palavras de Kirchner funcionaram mais do que a atuação do BC na empreitada para evitar a queda do dólar que o governo gostaria de ver no patamar de 3,00 pesos.O economista Aldo Abram, da consultoria Exante, opina que Kirchner demonstrou nos últimos dois dias uma "grande resistência em manter contatos com as entidades representativas dos homens de negócios" e que seu discurso é "altamente dogmático", o que coloca os mercados de "antenas ligadas e com os olhos bem abertos". Da Delphos Investiment, o analista Leonardo Chialva afirma que muitos investidores que estavam posicionados em taxas de juros dos prazos fixos, trocaram de posição. "Os mais conservadores buscaram dólares e os mais arriscados se refugiaram em ações". Isso se deve a que a taxa média pelos depósitos a prazo de 30 dias é de 14,4% e uma projeção oficial de inflação em torno de 15% anual. "As taxas de juros estão chegando ao piso e o investidor começou a enxergar o dólar novamente como uma alternativa", disse Marcelo Nicoletti, analista do ABN Amro."Esperar para ver". Esta parece ser a palavra de ordem dos mercados, segundo explicou Nicoletti. Ele descarta uma disparada do dólar e explica que ao mesmo tempo em que a demanda aumentou um pouco, a oferta diminuiu porque os exportadores decidiram reter suas divisas à espera de uma melhor cotação, aproveitando-se do momento de ruídos políticos. "Os exportadores esperam uns dias para ver o que acontecerá e depois voltam a liquidar" as divisas, afirma. Aldo Abraam, por sua vez, complementa o raciocínio de Nicoletti, dizendo que pelo menos, "enquanto não for divulgado o novo gabinete de Kirchner e as primeiras medidas, os mercados ficarão desconfiados".

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