Marina Devo/Reuters
Marina Devo/Reuters

Argentina espionou parentes de mortos em submarino 

Kirchnerismo aponta monitoramento ilegal a famílias de marinheiros do San Juan, que explodiu no fundo do mar em 2017 com 44 pessoas

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2020 | 03h30

BUENOS AIRES - Nos tensos meses após o desaparecimento de um submarino com 44 tripulantes em 2017, o serviço de espionagem da Argentina investigou ilegalmente as famílias deles, disse ontem a atual diretora da agência. Autoridades de espionagem disseram que o órgão descobriu três discos rígidos mostrando que as atividades e as comunicações dos parentes eram monitoradas na cidade litorânea de Mar del Plata, a partir de onde o submarino operava.

As acusações fazem parte de uma investigação mais ampla sobre a espionagem na gestão do ex-presidente de Mauricio Macri (2015 a 2019). Segundo a diretora da agência, Cristina Caamaño, o monitoramento não foi “ordenado nem autorizado por um juiz” e foi “ilegal”. 

“Não estamos falando de terroristas nem do crime organizado, e sim de um grupo de parentes que tentavam localizar seus entes queridos presos no submarino”, disse Cristina em entrevista coletiva. “Trata-se de um perverso caso de espionagem”, afirmou. “O governo deveria oferecer-lhes respostas, e não espionar a conduta dos parentes.”

Acusações sobre o uso da Agência Federal de Inteligência (AFI) para monitorar opositores são antigas. Logo que assumiu, o presidente Alberto Fernández incumbiu Caamaño de reformar o órgão, que foi criado por Juan Domingo Perón, em 1946. Em certo momento, a AFI teve mais de 20 mil agentes infiltrados na imprensa, em partidos e até na igreja. Há denúncias de que o aparato foi usado amplamente nas gestões de Carlos Menem (1989- 1999), Néstor e Cristina Kirchner, que juntos ficaram no poder de 2003 a 2015, e, por fim, na administração de Macri. 

Caamaño disse ter remetido suas descobertas a um promotor, que decidirá se fará uma denúncia formal à Justiça. Alguns parentes disseram que exigirão punição. “Alguém precisa ser preso por causa disso”, disse Andrea Mereles, cujo marido, Ricardo Gabriel Alfaro Rodríguez, estava a bordo do submarino. “É imperdoável.”

Membros do governo do ex-presidente já tinham negado as acusações de que a agência era usada para fins políticos. Nem Macri ou o ex-diretor da agência, porém, comentaram as acusações específicas de espionagem contra parentes dos marinheiros. 

Clima hostil

Após o desaparecimento da embarcação, o clima entre o governo Macri e os parentes dos tripulantes do San Juan foi piorando. Alguns montaram um acampamento improvisado diante da Casa Rosada, sede do governo em Buenos Aires, na tentativa de obter respostas.

Os parentes dos marinheiros suspeitavam há anos da espionagem ilegal. Segundo eles, seus celulares apresentam falhas no funcionamento e as autoridades pareciam estar sempre um passo à frente, aparentemente sabendo onde seriam realizados os protestos e quais perguntas fariam aos representantes do governo.

Isabel Polo, irmã de Daniel Alejandro Polo, 32 anos, um dos marinheiros a bordo do San Juan, disse ter pensado que alguém tinha invadido seu celular, que começou a reiniciar sozinho, perdendo mensagens e imagens. “Exigíamos respostas e a resposta deles foi nos seguir e nos espionar”, disse. “É muito desaforo.”

Essas suspeitas dos parentes eram justificadas, disse Cristina, revelando que a agência tinha fotos de agentes seguindo parentes dos marinheiros e evidências de investigação da sua atividade nas redes sociais.

Os documentos achados agora tinham data de 2018 e 2019, o que significa que a espionagem continuou mesmo após o submarino naufragado ter sido localizado. O San Juan desapareceu durante uma patrulha de rotina no litoral da Patagônia, no dia 15 de novembro de 2017. Desde o início, a busca chamou a atenção de todo o mundo, no que foi considerado o maior acidente fatal com submarinos em quase duas décadas.

Os esforços para localizar o San Juan envolveram militares de 18 países e uma das maiores missões de busca marítima da história recente, com cerca de 4 mil homens, 28 navios e 9 aeronaves. As primeiras notícias não vieram da Marinha argentina, mas do governo americano, que apontou uma forte explosão nas profundezas do Oceano Atlântico perto de onde o submarino viajava depois de sua última comunicação recebida.

Senado culpou corte de verbas

Uma comissão no Senado da Argentina que investigou as causas do afundamento do San Juan concluiu no ano passado que o acidente foi fruto da ineficiência dos comandantes navais da Marinha, somado a investimento financeiro insuficiente por parte do governo. 

“As hipóteses de que o submarino foi atacado por um navio estrangeiro, atingido por um barco de pesca ou que estivesse realizando missões secretas foram descartadas”, afirmou a comissão, que também era composta por congressistas alinhados ao presidente  Macri à época. 

O relatório apontou ainda que a constante imposição de limites nos investimentos em Defesa nos últimos anos foi fator que contribuiu para o desastre, assim como “a falha para atualizar tecnologias e manter um nível mínimo de manutenção baseado em horas de uso, o que gerou deterioração” do submarino. / NYT, TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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