REUTERS/Ueslei Marcelino
REUTERS/Ueslei Marcelino

Argentina fecha cerco a operador da Odebrecht

Justiça pede que empresário e outros dois suspeitos de envolvimento no repasse de propina da construtora sejam proibidos de deixar o país

O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 01h00

BUENOS AIRES - A Justiça da Argentina proibiu ontem que o empresário Jorge “Corcho” Rodríguez e mais duas pessoas associadas a ele deixem o país em razão de seu provável envolvimento no repasse de propina da construtora brasileira Odebrecht para políticos do país, informou o jornal Clarín

A decisão foi tomada pouco depois de o Escritório Anticorrupção (OA, em espanhol) da Argentina protocolar o pedido direcionado ao juiz federal Sebastián Casanello, responsável pelas investigações envolvendo a Odebrecht. O órgão também pediu que Rodríguez seja interrogado e tenha os bens congelados.

Fontes ouvidas pelo Clarín disseram que a decisão de impedir a saída de Rodríguez, Marcos Sankowitz e Osvaldo Gandini foi tomada pelo magistrado Sergio Torres, que substitui temporariamente Casanello.

De acordo com a investigação conduzida pelo escritório dirigido pela ex-deputada macrista Laura Alonso, o empresário atuou no repasse de US$ 10,2 milhões e € 684 mil para o ex-ministro kirchnerista Julio De Vido por meio de uma empresa offshore e de contadores no Uruguai. 

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A propina, que também teria beneficiado outros funcionários do governo dos Kirchners, tinha como objetivo favorecer a Odebrecht na concorrência para construir uma estação de tratamento de água no Rio Paraná de las Palmas, na Província de Buenos Aires, “por meio do pagamento de suborno para funcionários públicos”, segundo a denúncia.

Segundo o escritório, o esquema envolvia a transferência por contas bancária para a offshore administrada por três contadores e mais um funcionário. A denúncia diz ainda que os quatro fizeram várias viagens entre o Uruguai e a Argentina nos aviões particulares do empresário, “o que permite suspeitar que parte do suborno, em dinheiro vivo, pode ter sido transferida por essa via”.

A licitação da estação de tratamento de água foi vencida pelo consórcio formado pela Odebrecht e por outras três empresas argentinas: Benito Roggio, Supercemento e José Cartellone Construcciones Civiles.

“Seria ingênuo acreditar que somente a Odebrecht seria beneficiada com o pagamento ilegal de quantias milionárias”, diz o relatório do escritório enviado para a Justiça argentina, que também pediu que sejam ouvidos representantes das empresas locais.

A investigação diz que a quantia desviada dos cofres públicos argentinos deveria ter sido investida em três obras de infraestrutura que tinham em comum a chancela do ex-ministro De Vido, apontado como a “autoridade máxima governamental a ter conhecimento das manobras ilícitas”, segundo o Clarín.

Neste sentido, o órgão pediu que além do ex-ministro também sejam interrogados outros seis funcionários diretamente subordinados a De Vido durante os governos de Cristina  Kirchner e Néstor Kirchner. 

O Escritório Anticorrupção não pediu que funcionários da Odebrecht sejam interrogados, pois há a expectativa de que a Justiça argentina acerte um mecanismo de cooperação com o Brasil e tenha acesso ao conteúdo das delações premiadas feitas pelos diretores da construtora ao Ministério Público brasileiro detalhando todos os pagamentos irregulares feitos pela empresa entre 2007 e 2014.

Reforço. O procurador federal argentino Federico Delgado, responsável pela investigação sobre a propina paga pela Odebrecht em outras duas obras na Argentina, também pediu ao juiz Casanello que interrogue Rodríguez por seus vínculos com a construtora. 

“De fato, estamos trabalhando em um texto de características similares. Por esta razão, não só V.Ex.ª deveria receber favoravelmente a petição, mas deveria decretar imediatamente a proibição de saída do país de Jorge Ernesto Rodríguez”, diz o texto entregue ao tribunal.

O apoio de Delgado à iniciativa de Laura Alonso ocorreu poucos dias depois de o procurador ser acusado pelo juiz federal Claudio Bonadio de violar seus deveres como funcionário público ao interrogar o doleiro brasileiro Leonardo Meirelles – que, entre outras coisas, havia ligado o atual chefe da inteligência argentina e amigo pessoal do presidente Mauricio Macri, Gustavo Arribas, às propinas da Odebrecht. 

Para Bonadio, o depoimento de Meirelles ao procurador federal foi mentiroso e teve como objetivo prejudicar Arribas, a quem o juiz desvinculou totalmente da investigação sobre a construtora brasileira.

“(Na América Latina), Meirelles é uma testemunha e nós tomamos seu depoimento, mas o juiz Bonadio o considerou um acusado e quer aprisioná-lo”, disse Delgado no fim de semana ao programa LN+, do jornal La Nacion. “Essas tensões explicam um pouco o por que de não avançarmos (na Justiça). Na Argentina, vemos as coisas ao contrário”, ironizou.

O procurador também criticou a Justiça do país ao dizer que não há incentivos para que delatores colaborem e digam a verdade. “Não apenas denunciam os procuradores que fazem seu trabalho, como também as pessoas que estão dispostas a falar a verdade e fizeram acordo com o Estado para fazê-lo. Mas nosso Estado não acredita neles e – neste caso do juiz Bonadio – ainda manda prendê-los”, completou.

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