Ronaldo Schemidt/AFP
Ronaldo Schemidt/AFP

Com vacina russa, Argentina é o 4º país latino-americano a iniciar imunização

Primeiras 300 mil doses da Sputnik V, cercada de desconfiança por não ter aval de revistas científicas ou eficácia comprovada em maiores de 60 anos, começam a ser aplicadas nos argentinos; México, Chile e Costa Rica também já implementaram programas de imunização

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2020 | 09h48
Atualizado 29 de dezembro de 2020 | 21h36

BUENOS AIRES - A Argentina se tornou nesta terça-feira, 29, o quarto país da América Latina a começar um programa de vacinação em massa contra a covid-19. Na semana passada, o país recebeu 300 mil doses da Sputnik V, vacina desenvolvida por cientistas russos. Os primeiros imunizados serão os profissionais de saúde. 

Com isso, a Argentina se torna o primeiro país a usar a Sputnik V fora da esfera de influência da velha União Soviética – nesta terça, a Bielo-Rússia também iniciou a imunização usando a vacina russa. Na América Latina, Chile, México e Costa Rica já começaram a vacinar suas populações com doses enviadas pela Pfizer e BioNTech. 

Conforme havia anunciado o presidente, Alberto Fernández, a vacinação iniciou às 9 horas. A campanha foi elaborada para que imunização começasse ao mesmo tempo em vários pontos do país. “É um dia emblemático, porque começamos a vacinar as pessoas e dar imunidade àqueles que correm mais risco, que são os profissionais da saúde”, disse o presidente. 

A Província de Buenos Aires ficou com 123 mil doses (41%), seguida por Córdoba (21,9 mil), Tucumán (11,5 mil) e Mendoza (11 mil). Outras regiões receberam menos doses, de acordo com a proporção da população e a quantidade de profissionais de saúde. 

“A ideia é começar a vacinação com os que têm mais exposição ao risco. É uma verdadeira epopeia fazer a maior campanha de vacinação da Argentina com igualdade de acesso”, disse o ministro da Saúde, Ginés González García, ao iniciar o processo no Hospital Nacional Alejandro Posadas, em Buenos Aires. 

A Argentina já registrou 1,6 milhões de casos de covid-19 e 25 mil mortes. Mas, segundo o ministro, o início da vacinação não resolve de imediato o problema da pandemia. A população, de acordo com ele, ainda precisa se cuidar porque leva tempo para a “vacina ter efeito em nível comunitário”.

Até fevereiro, mais 20 milhões de doses terão chegado ao país para completar a vacinação das equipes de saúde e das forças de segurança. O acordo com a Rússia prevê a entrega de 25 milhões de doses da Sputnik V. O contrato de aquisição da vacina é o terceiro assinado pela Argentina: o primeiro foi com a AstraZeneca e a Universidade de Oxford – vacina que será aplicada a partir de março, e o segundo com a aliança internacional Covax, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar do clima de esperança, a vacina russa é cercada de desconfiança. Nesta terça-feira, o jornal Clarín escreveu sobre o ceticismo de médicos, cientistas e enfermeiros sobre a Sputnik V. “Em grande medida, ainda não foram publicados detalhes da vacina em uma revista científica, o que está previsto para início de janeiro. Referências de diferentes associações e grupos de saúde concordam que falta informação, mas afirmam que, apesar disso, tomarão a vacina.”

O ministro da Saúde reconheceu diante das câmeras a apreensão do governo, que ainda não recebeu os documentos da Rússia sobre a eficácia da vacina em pessoas com mais de 60 anos. “O presidente está nervoso, porque não chegam os papéis do estudo”, disse García. 

No dia 17, o presidente russo Vladimir Putin causou confusão no governo argentino ao admitir publicamente que não havia tomado a Sputnik V porque ainda não havia sido aprovada para pessoas com mais de 60 anos – ele tem 68 anos. Por fim, a Rússia anunciou, no sábado, que autorizou o uso da vacina em idosos. Mas não resolveu o problema da credibilidade.

A controvérsia sobre a Sputnik V ganhou força desde que Putin anunciou seu registro para uso antes da conclusão de estudos clínicos em grande escala. Seus desenvolvedores disseram que uma análise provisória indicou que ela era mais de 91% eficaz após os voluntários receberem duas doses. 

O Kremlin vem tentando promover a vacina russa como uma imunização barata e eficaz contra o coronavírus. As duas doses tomadas com três semanas de intervalo custam US$ 20 (cerca de R$ 103), bem menos do que os imunizantes concorrentes – os EUA pagaram US$ 39 por dose da vacina da Pfizer.

Diplomacia

Nesta terça-feira, Fernández se envolveu em nova saia-justa com o governo uruguaio ao oferecer ajuda para que Bolívia e Uruguai comprem a Sputnik V.

“Falei com o chanceler uruguaio, meu amigo Pancho (Francisco) Bustillo, e com o presidente da Bolívia, Luis Arce”, afirmou o argentino. “Eu disse que, se puder ajudar, que contem comigo.”

Fontes do governo uruguaio, segundo o Clarín, afirmaram que o presidente Luis Lacalle Pou não pediu a ajuda de Fernández, que teria passado para Bustillo o contato de um alto funcionário russo para obter doses da Sputnik V. Lacalle Pou vem sendo criticado pela oposição por não ter um plano abrangente de vacinação. / AFP, REUTERS, EFE e WP

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