Michael Dunlea/Reuters
Michael Dunlea/Reuters

Argentina investiga caso entre ex-atriz e ditador

Graciela Alfano, sex simbol nos anos 70, é acusada de ter recebido do almirante Emilio Massera joias que pertenciam a presos políticos do regime

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

A ex-modelo e atriz argentina Graciela Alfano, sex symbol de seu país nos anos 70, 80 e 90, será investigada pela Justiça por um suposto caso amoroso com o ex-almirante Emilio Massera, considerado uma das mais sinistras figuras da ditadura militar (1976-83).

Graciela, presença constante nas revistas de fofocas, que atualmente integra o júri do programa de auditório Dançando por um sonho, é acusada de ter recebido "presentes" do ex-integrante da Junta Militar. Massera foi um dos protagonistas do golpe de Estado que derrubou a presidente Isabelita Perón (1974-76). As peles e joias dadas à ex-modelo teriam sido roubadas de desaparecidos políticos.

O estopim da investigação, a cargo do promotor Luis Comparatore, foi Intrusos, um programa de fofocas no canal de TV América comandado pelo jornalista Jorge Rial, especializado em escândalos sexuais das celebridades. Irritada com as especulações sobre o caso, Graciela reagiu irritada. "Se você vai para a cama com um genocida, isso não quer dizer que você sai com 30 mil desaparecidos", disse. A afirmação provocou o repúdio imediato das organizações de defesa dos direitos humanos.

Comparatore recebeu relatórios liberados pelo serviço de inteligência chileno que respaldariam as suspeitas. Um dos documentos sobre a relação do casal - e a eventual entrega à sex symbol de bens usurpados de pessoas detidas nos centros clandestinos de tortura da ditadura - foi preparado nos anos 70 por Enrique Arancibia Clavel, um dos espiões do ditador chileno Augusto Pinochet na Argentina. Clavel apareceu assassinado há poucos meses em seu apartamento portenho, supostamente morto por um garoto de programa.

Ontem, o escândalo ganhou novas dimensões depois da atriz Elsa Ayala afirmar ter visto a ex-modelo com Massera nos anos 70 no escritório do almirante quando foi fazer um apelo por seu marido, um desaparecido político.

Segundo Elsa, Graciela interrompeu a reunião com Massera com uma frase cortante: "Basta, o almirante está ocupado e com muitas coisas para fazer". A atriz replicou: "Mas é a vida de meu marido". A ex-modelo deu a tréplica: "Bom, você não é a única".

Conquistador. Massera, que morreu em dezembro após uma década em coma, nunca fez declarações públicas sobre o caso. Com fama de "Casanova", Massera - que assassinou os maridos de algumas amantes - ostentava impecáveis uniformes e permanente bronzeado. O militar, definido pelo escritor e jornalista Miguel Bonasso como um "serial killer com sorriso de Gardel", era famoso por sua crueldade, maquiavelismo e personalidade esquizofrênica. Entre 1976 e 1981 ele integrou a primeira junta que comandou a Argentina nos anos de chumbo.

Com a volta da democracia, foi detido e levado a julgamento em 1985 pelas acusações de 83 homicídios, 632 sequestros, 267 torturas, 102 roubos, 201 falsificações de documentos, 23 casos de pessoas reduzidas à escravidão, além de 11 sequestros de bebês e uma extorsão. Foi condenado à prisão perpétua, mas, cinco anos depois, foi indultado pelo presidente Carlos Menem (1989-99). Curiosamente, o ex-presidente também teria tido um caso com Graciela na década de 90.

Ontem, pelo Twitter, a ex-modelo afirmou que nunca teve tipo algum de relação com "o senhor Massera" além de "um aperto de mãos" durante um evento de gala no Teatro Colón. Ela também disse que sentia-se "caluniada". A ex-sex symbol disse ainda que possui um cunhado desaparecido da ditadura.

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