Argentina julga autores de massacre

Num dos atos mais cruéis da ditadura, policiais dinamitaram 30 presos

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

29 de abril de 2008 | 00h00

Começa hoje em Buenos Aires o julgamento dos acusados da "matança de Fátima" - o mais cruel massacre da ditadura (de 1976 a 1983), na qual 30 civis foram dinamitados em 1976, numa área do distrito de Fátima, na Grande Buenos Aires. Os prisioneiros - 20 homens e 10 mulheres -, com os olhos vendados e mãos amarradas nas costas, foram levados ao local por agentes da Polícia Federal, autores da detonação da carga de dinamite, que deixou uma cratera de um metro de profundidade. Quatro prisioneiros estavam desacordados, após violentas sessões de tortura. Os demais 26 tinham sido dopados antes de serem postos sobre as cargas explosivas. Os pedaços dos 30 corpos espalharam-se por centenas de metros. Do total, somente os restos de 16 puderam ser identificados.O grau de violência levou até mesmo o ditador, general Jorge Rafael Videla, a repudiar o massacre. O primeiro dos três oficiais da Polícia Federal acusados é o delegado Carlos Enrique Gallone (definido como um "fervoroso admirador da extrema direita"). Os outros dois réus são um ex-diretor de inteligência da Superintendência da Polícia Federal, o delegado-geral Juan Carlos Lapuyole, e o delegado Miguel Ángel Timarchi.O motivo do massacre foi a represália por um atentado perpetrado dois meses antes pelo grupo guerrilheiro Montoneros, que pôs uma bomba no refeitório da sede da Polícia Federal, causando a morte de 22 policiais. Nos dias seguintes ao do atentado, a polícia assassinou uma centena de civis suspeitos de "subversão". Para coroar a onda de vingança, a polícia decidiu causar uma matança que fosse exemplar. Dessa forma, selecionou ao acaso 30 prisioneiros (20 homens e 10 mulheres) entre as centenas que estavam detidos nos porões do edifício da Polícia Federal, em pleno centro portenho, e levou-os até Fátima.ISABELITAA ex-presidente María Estela Martínez de Perón, a "Isabelita", não será extraditada para a Argentina. Isabelita, que mora em Madri há quase três décadas, é acusada pela Justiça argentina de participação nos crimes da organização paramilitar clandestina "Tríplice A" (Aliança Anticomunista Argentina).

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