Enrique Marcarian REUTERS
Enrique Marcarian REUTERS

Argentina julga Menem por sabotar investigação sobre a Amia

O ex-presidente, 11 funcionários de seu governo e o ex-juiz Galeano são acusados de ocultar provas

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2015 | 20h52

O julgamento de altos funcionários acusados de sabotar, logo no início, a investigação do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em 1994, começou nesta quinta-feira, 6, em Buenos Aires sem o réu mais conhecido, o ex-presidente e senador Carlos Menem. O atentado contra ONG judaica matou 85 e feriu mais de 300. Até chegar aos tribunais, a causa foi por anos alvo de medidas jurídicas protelatórias. 

A suspeita de uma ação deliberada para favorecer os terroristas começou em 2004, quando um tribunal absolveu policiais argentinos da autoria do ataque, tese defendida pela investigação do juiz federal Juan José Galeano. Ele, Menem e 11 réus são acusados de ocultar provas e obstruir a chegada a pistas reais. Entre os julgados há dois ex-promotores, um ex-chefe de inteligência, antigos integrantes da polícia, um líder da comunidade judaica e o último dono da caminhoneta detonada. Menem e Galeano podem pegar de 3 a 15 anos de prisão. O ex-presidente, que enfrentou outros processos recentemente, não será detido se condenado, pois tem privilégios como senador.

Ao ritmo de uma sessão por semana, a previsão é que uma sentença seja conhecida em 2016. A presidente Cristina Kirchner está na lista de mais de 140 testemunhas. O caso não tem relação com a denúncia feita pelo promotor Alberto Nisman quatro dias antes de ser encontrado morto com um tiro na cabeça em 18 de janeiro. Ele havia acusado Cristina e integrantes da cúpula kirchnerista de encobrir iranianos que a Justiça argentina considera culpados pelo ataque. O promotor acreditava ter provas de que o acordo feito com o Irã em 2013 para que eles fossem ouvidos em Teerã tinha finalidade comercial. Sua denúncia foi arquivada.

A causa de Nisman e sua repercussão política foi uma das razões pelas quais os parentes das vítimas se dividiram. Um grupo mais próximo ao kirchnerismo é parte direta na ação envolvendo Menem, de 85 anos, que não foi à sessão alegando problemas de saúde. Ele costuma ir ao Senado quando o kirchnerismo necessita de votos. 

“Era previsível que não se apresentasse. Antes, disse que não poderia participar, pois estava em campanha política. Esse argumento não foi aceito e surgiram problemas de saúde. Não queremos vingança, queremos justiça. Se ele tiver condições, exigiremos que venha na maca”, disse ao Estado Sergio Burstein, que perdeu no atentado a ex-mulher, mãe de seus dois filhos.

Entre os parentes das vítimas, ele é o mais próximo de Cristina, que o recebe com frequência em seu gabinete. Ele a defendeu da acusação de Nisman. “Aquilo acabou no lixo porque era uma vergonha”, diz.

Embora a Justiça tenha concluído que o grupo xiita Hezbollah foi responsável pelo ataque com o apoio do Irã, há dúvida sobre a cumplicidade da Síria, de onde a família de Menem é originária, e de argentinos.

Na primeira audiência, o tribunal leu a acusação formal, alegando que o ex-juiz Galeano, sob pressão de Menem, deixou de investigar a pista que envolvia o sírio-libanês Alberto Kanoore Edul, preso após a descoberta de que ele havia ligado para Carlos Telleldín, proprietário da caminhonete detonada, dias antes do ataque. Tellendín é investigado por receber US$ 400 mil para acusar os policiais inocentes.

Outra corrente de parentes, à qual pertence Sofía Guterman, de 73 anos, afastou-se para não compactuar com o que julga “apropriação da causa pelo kirchnerismo”. Ela perdeu a filha, uma professora de 28 anos. “Os acusados colocaram muitas travas e tiveram tempo para se preparar. Quero saber a quem encobriram e por quê. Se após 21 anos de mentira sairmos com um pouquinho da verdade será bom.”

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