Argentina julgará acusados no atentado à AMIA

Na próxima segunda-feira à tarde a Justiça começa a julgar os envolvidos no atentado à associação beneficente judaica AMIA, destruída por um carro bomba no dia 14 de junho de 1994. O atentado - o maior da história da Argentina - causou a morte de 85 pessoas, além de ferimentos e mutilações em outras trezentas. Entre os envolvidos estão policiais da província de Buenos Aires e o brasileiro Wilson dos Santos. Este julgamento é considerado o mais importante do país, desde que em 1985 os líderes da última ditadura militar (1976-83) passaram pelo banco dos réus.Serão julgadas vinte pessoas (treze são policiais), das quais cinco poderiam ser condenadas à prisão perpétua, na categoria de cúmplices do atentado. Embora não existam provas definitivas, o Hezbollah é tido como o responsável pelo atentado, fato que no atual contexto de clima bélico contra o terrorismo internacional chamará a atenção de todo o mundo. O julgamento ocorrerá no edifício dos Tribunais, no bairro de Retiro. A sala foi construída especialmente em um subsolo com um rigoroso sistema de segurança. Mais de 200 policiais controlarão o acesso à sala do julgamento.Entre os acusados, um brasileiroEntre os suspeitos existem policiais com vínculos com a máfia do tráfico de drogas e de automóveis, parentes de torturadores da ditadura e militares carapintadas. Além deles, está Wilson dos Santos, um brasileiro que em estranhas circunstâncias teria informado o consulado argentino, em Milão, que iria ocorrer um atentado contra um alvo judeu em Buenos Aires uma semana antes.Santos, cuja profissão na capital argentina iria de pequeno contrabandista até garoto de programa, teria se envolvido com uma iraniana, Nasrim Mokhtari, que seria amiga de terroristas no Oriente Médio, que teriam ajudado os argentinos a conseguirem os explosivos. Há meses preso em Buenos Aires, Santos espera pelo julgamento. Pouco depois de chegar a Argentina, o brasileiro declarou que estava assustado e que temia ser assassinado na prisão. Segundo ele, sua detenção é resultado de uma confusão cinematográfica, e sustenta que não sabe de nada.Argentina tem a maior comunidade judaica da ALNa véspera do julgamento, a possibilidade de um ataque americano ao Afeganistão nos próximos dias e o ano-novo judaico estão criando um clima de tensão que há tempos não se via na Argentina. No país está concentrada a maior comunidade judaica da América Latina (a segunda do continente, depois dos EUA), com mais de 600 mil pessoas, dos quais, pelo menos, metade está em Buenos Aires.O secretário de Justiça, Melchor Cruchaga, alertou que "a Argentina não está totalmente livre de um novo atentado terrorista". Cruchaga afirmou que embora a segurança em todas as fronteiras tenha sido reforçada, os limites fronteiriços do país "não são absolutamente seguros". Referindo-se aos atentados anteriores (1992, Embaixada de Israel; 1994, AMIA) o secretário afirmou que "poderíamos estar dormindo com o inimigo, já que as conexões locais não foram desarticuladas".Segurança reforçadaDentro da Argentina existem dois milhões de imigrantes ilegais, sobre os quais não existe controle algum de suas identidades. As fronteiras argentinas possuem a impermeabilidade de uma peneira, afirmam os analistas. Em alguns pontos, como em Puerto Iguazu (divisa com Foz de Iguaçu-PR) e Paso de los Libres (divisa com Uruguaiana-RS), o fluxo de pessoas é de tal tamanho que o controle é relapso. Outro problema interno do país é a existência de uma miríade de serviços de inteligência que não cooperam entre si.Os aeroportos argentinos estão em alerta máximo. As empresas aéreas estão recomendando a seus passageiros que se apresentem com uma antecedência de três horas antes dos vôos. O governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, declarou hoje que a Argentina precisa "blindar-se": "Esta é uma guerra mundial. Temos que reforçar as fronteiras e colocar em alerta máxima a segurança do espaço aéreo". Segundo Ruckauf, uma das principais lideranças do Partido Justicialista (mais conhecido como "Peronista"), da oposição, "a Argentina já está dentro do conflito. Esta guerra vai prejudicar a Argentina porque a recessão será mais profunda".

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