Argentina limita direito de policiais protestarem

Governo prepara projeto para restringir manifestações; policiamento aumenta por temor de saques no aniversário da queda do presidente Fernando de la Rúa

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2013 | 02h01

O governo da presidente Cristina Kirchner apresentará ao Congresso um projeto de lei para punir as forças policiais federais, provinciais e municipais que "abandonarem sem justificativa suas funções". A medida ocorre duas semanas depois de uma onda de greves policiais em 20 das 24 províncias do país.

A saída dos policiais das ruas abriu o espaço para a ação de saqueadores em 16 províncias, com o saldo de centenas de feridos, quase 3 mil lojas assaltadas e 16 mortos. As forças policiais provinciais entusiasmaram-se com o sucesso das greves - já que obtiveram aumentos salariais em poucos dias - e avaliam a criação de sindicatos.

Segundo o senador Aníbal Fernández, aliado de Cristina no Senado, as paralisações das últimas semanas foram "extorsões" contra os governos provinciais. Com o objetivo de dissuadir novos protestos, o projeto prevê pena de prisão de até 8 anos para os policiais que participem de greve.

Nas últimas três semanas, o governo enviou às províncias com maior tensão social um total de 13 mil homens da Gendarmería, força de segurança nacional especializada na repressão a manifestações.

Ontem, foi decretado um estado de alerta por temor de eventuais saques. Rumores indicavam que poderiam ocorrer assaltos massivos em áreas da Argentina hoje e amanhã - datas que marcam o 12.º aniversário dos saques que derrubaram o governo do presidente Fernando de la Rúa, em dezembro de 2001. No entanto, após reforço do policiamento, os rumores diminuíram de intensidade.

Reforço. O Ministério da Segurança monitora no Twitter e no Facebook convocações de saques, especialmente nos municípios da Grande Buenos Aires, onde vivem 10 milhões de pessoas (25% da população do país). Além disso, o governo determinou que helicópteros sobrevoassem áreas consideradas sensíveis durante a noite, especialmente sobre setores que possuem um histórico de saques.

Em Jujuy, no norte do país, militantes de organizações sociais começaram ontem a vigiar as ruas para colaborar nas tarefas contra os saques. Milagro Salas, líder da Tupac Amaru, a principal entidade de esquerda alinhada com o governo da presidente Cristina, capaz de mobilizar rapidamente milhares de piqueteiros, afirmou que seus militantes defenderão os comerciantes da província contra novos saques. Segundo ela, o objetivo dos piqueteiros não é proteger as empresas, mas sim "defender os postos de trabalho".

Salas afirmou que seus militantes armarão barricadas, além de instalar-se dentro dos estabelecimentos comerciais, como seguranças.

O temor de novos saques levou os imigrantes chineses na Argentina, que controlam 25% dos supermercados do país, a anunciar o fechamento de suas portas por dois dias. Os chineses têm grande presença nos bairros de classe média baixa, onde os saques foram mais frequentes. Em Buenos Aires e na região metropolitana da capital argentina, eles representam 45% dos mercados.

Córdoba. Na cidade de Córdoba, cenário dos saques de duas semanas atrás, a rede Cordiez anunciou que fecharia as portas das filiais instaladas nos bairros Primero de Mayo e Ituzaingó, onde ocorreram os principais saques.

Outra rede, a Buenos Dias, também fechou as filiais nos bairros cordobeses de Deán Funes e San Lorenzo. Ali, os saqueadores foram os próprios vizinhos dos supermercados, que realizavam compras nesses estabelecimentos diariamente.

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