Argentina, o novo narcoestado

A guerra contra as drogas no México está levando os traficantes a usar o país sul-americano como centro de refino e rota de envio, principalmente para a Europa

É PESQUISADORA NA , UNIVERSIDADE YALE, HALEY, COHEN, FOREIGN POLICY , É PESQUISADORA NA , UNIVERSIDADE YALE, HALEY, COHEN, FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2012 | 03h02

Em setembro, o juiz argentino Carlos Olivera Pastor saiu do tribunal na Província de Jujuy para buscar uma caixa perto de seu carro estacionado. Pastor removeu a tampa da caixa, numerada como se contivesse documentos de arquivo judiciários, e encontrou uma cabeça decapitada, os olhos abertos. Em outubro, dois homens atacaram selvagemente um secretário do tribunal criminal do mesmo distrito, avisando que da próxima vez ele seria assassinado. Segundo autoridades da Sedronar, agência do governo que combate o tráfico e consumo de drogas, grande parte da droga que entra na Argentina passa pelas áreas pouco habitadas no noroeste do país e os juízes, que com frequência julgam casos relacionados com drogas, admitiram que os narcotraficantes foram os responsáveis por aqueles incidentes.

Os grupos de traficantes recentemente expandiram suas atividades na Argentina, durante muito tempo um centro de distribuição da droga destinada à Europa, aumentando a exportação e transformando o país num ponto tanto de consumo quanto de produção da substância.

Embora o problema da droga na Argentina não seja tão terrível como na Colômbia ou no México "as coisas começaram a mudar e muito", diz Mónica Cuñarro, promotora independente que prestou serviços como secretária executiva da Comissão Nacional de Políticas Públicas em questões de Prevenção e Controle do narcotráfico.

Em 2010, até onde existem dados estatísticos, os traficantes aproveitavam-se do fraco controle na fronteira do país, a ausência de fiscalização aérea, mais de 1.500 pistas de aterrissagem e decolagem ilegais e uma longa faixa da costa atlântica para exportar mais de 70 toneladas de cocaína, a maior parte para a Europa, onde o consumo chega a 123 toneladas por ano.

Operações nos últimos dois anos sugerem que a Espanha é um ponto de entrada especialmente popular para drogas despachadas da Argentina. Em abril de 2010, autoridades espanholas apreenderam 800 quilos de cocaína em um caminhão camuflado como se fosse um veículo do Rali Dacar e informaram depois que a droga tinha sido carregada na Argentina. Em janeiro, um jato executivo pilotado por dois filhos de um brigadeiro da Força Aérea dos tempos da ditadura argentina chegou a Barcelona carregado com uma tonelada de cocaína num caso ligado aos militares, o que levantou preocupações quanto à corrupção institucional.

Essas apreensões mostram que há uma nítida rota de trânsito entre os dois países e levam a questionamentos sobre como tal quantidade da droga está saindo da Argentina sem que isso seja percebido.

Segundo um estudo realizado por Martin Verrier, assessor de segurança do congressista argentino Francisco Narvaez, 96% da cocaína que sai da Argentina chega em segurança a seu destino. "Na Argentina, a situação é tal que os narcotraficantes entram e saem sem nenhum problema", lamenta Claudio Izaguirre, presidente da Associação Antidrogas Argentina, uma ONG com sede em Buenos Aires.

Consumo interno. À medida que a Argentina passou a ser cada vez mais usada como rota do tráfico, também cresceu o volume de drogas disponível dentro das fronteiras do país. E o resultado disso é que o consumo de drogas na Argentina explodiu.

Na Argentina, um grama de cocaína pura custa menos de US$ 25, ao passo que a mesma quantidade é vendida nos EUA por US$ 120. Em 2008, a Argentina superou seus vizinhos e os EUA; hoje é onde mais se consome cocaína no Hemisfério Sul: aproximadamente 2,6% da população do país com idade de 15 a 64 anos, um aumento de 117% em relação a 2000. Os argentinos consomem cinco vezes mais cocaína do que a média global e têm um dos mais altos índices de consumo do mundo.

Também preocupante é o papel do país como produtor dos precursores químicos, substâncias usadas para a extração e o refino de drogas como cocaína, morfina e heroína. Essas substâncias são particularmente difíceis de fiscalizar já que são necessárias também para a produção de plásticos, produtos farmacêuticos, perfumes, cosméticos e detergentes.

Os contrabandistas transportam a cocaína da Bolívia, do Peru e da Colômbia para laboratórios clandestinos na Argentina, onde ela é refinada, antes de ser enviada para a Europa. Aproximadamente 250 laboratórios estão ocultos pelo país. Como a legislação que rege a importação de substâncias químicas ficou mais rigorosa em outros países da região, os "narcotraficantes químicos" desses laboratórios também estão produzindo heroína, efedrina e metanfetaminas que são despachadas para o México por mar e depois enviadas para os EUA.

Embora não haja estimativas sobre o volume total dos precursores químicos presentes no país, em 2010 as autoridades apreenderam um volume de efedrina jamais visto em outro país, exceto a China.

Com o reforço das medidas de combate ao tráfico em seus países de origem, os cartéis mexicanos e colombianos transferiram parte das suas operações para o exterior. Em junho, o assessor da ONU Edgardo Buscaglia foi à Argentina e confirmou que o cartel mexicano de Sinaloa, dirigido por El Chapo Guzmán, estabeleceu uma rede de bases no norte do país.

Outras notícias indicam que Guzmán viveu na Argentina com sua mulher e enteada até 2011. "As grandes organizações do narcotráfico estão aproveitando ao máximo as características da globalização: a rapidez das transações, os ativos intangíveis, transporte e assim por diante", diz Verrier. "Países com instituições frágeis, como a Argentina, estão mais expostos à penetração dessas organizações."

Os vínculos entre o narcotráfico e o terrorismo na Argentina parecem estar se fortalecendo.

Desde 2001, os EUA têm obtido informações de inteligência sobre "células terroristas na região da Tríplice Fronteira (onde Argentina, Paraguai e Brasil se cruzam), algumas infiltradas no tráfico de drogas", disse o ex-diretor do FBI Louis Freeh.

Em fevereiro de 2010, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, expressou sua preocupação com essa região fronteiriça a um congressista americano. Alguns meses depois, a Interpol prendeu um suspeito de financiar o grupo libanês Hezbollah na fronteira com a Argentina, na cidade paraguaia de Ciudad del Este.

Reagindo a uma situação que vem se deteriorando, a presidente argentina anunciou, em julho, um novo plano chamado Escudo Norte, envolvendo a instalação de 20 radares aéreos e um reforço de 6 mil homens para a Guarda Costeira e a Gendarmería Nacional, e mais 800 soldados para a Força Especial do Exército no norte do país.

Anúncios recentes feitos pelo diretor da agência Sedronar indicam que a Argentina pode descriminar a posse e consumo de maconha, o que permitiria ao governo redirecionar seus recursos na luta contra as organizações do narcotráfico.

Mas a Argentina perdeu recentemente um parceiro-chave na luta contra o tráfico.

Em julho, o Ministério da Segurança da Argentina ordenou à DEA - agência americana de combate ao narcotráfico - que suspendesse suas atividades no país até nova ordem, citando a necessidade de um reexame dos programas internacionais de combate ao narcotráfico realizados em cooperação.

O Departamento de Estado americano, em seu Relatório de Estratégia Internacional de Controle de Narcóticos, de 2012, sugeriu que a suspensão poderia estar relacionada a um escândalo que veio à tona em fevereiro, quando o governo argentino acusou os EUA de contrabandear armas e equipamentos de vigilância para a Argentina sob a alegação de serem destinados a cursos de treinamento da polícia.

A DEA e a embaixada americana em Buenos Aires não se manifestaram sobre o caso.

Martin Verrier, assessor para assuntos de segurança no Congresso dos EUA, acredita que a ruptura foi recíproca. "Achamos que a suspensão da colaboração com a DEA tem a ver com a estratégia do governo para introduzir uma lei determinando não ser crime o consumo pessoal de droga - uma estratégia à qual a DEA é totalmente contrária", afirmou. Independentemente da razão do desacordo, sem a assistência da DEA os recursos para combate à droga na Argentina diminuíram nitidamente: as apreensões de cocaína caíram de 12,7 toneladas em 2010 para 5,8 toneladas em 2011.

Embora especialistas reconheçam que a Argentina não vai se tornar um Estado de narcotraficantes como Colômbia ou México, eles admitem que o país está numa encruzilhada em suas medidas antidroga. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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