Argentina planeja distribuir comida para evitar saques

Relatórios entregues às autoridades do país apontam possíveis ataques a centros comerciais e distúrbios às vésperas do Natal

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2014 | 02h03

O governo argentino pretende distribuir alimentos antes do Natal e ano-novo para os setores afetados pela inflação e o custo de vida elevado. As principais ações serão centradas na Grande Buenos Aires, alvo no fim do ano passado de saques e foco frequente de conflitos sociais.

O secretário de Segurança da Argentina, Sergio Berni, disse ontem que recebeu "relatórios confidenciais" sobre a preparação de "saques localizados" a estabelecimentos comerciais em dezembro. Segundo Berni, entre os responsáveis pelo plano estariam a organização Bairros em Pé, partidos de oposição, além de setores do peronismo - em referência ao Partido Justicialista, não alinhados com o governo da presidente Cristina Kirchner.

A Casa Rosada, governadores das Províncias e prefeitos temem uma nova onda de saques, como a ocorrida em dezembro do ano passado, quando mais de 3 mil lojas foram atacadas na Argentina. Fontes do governo indicam que as autoridades distribuirão sacolas com alimentos dias antes do Natal para aplacar setores afetados pela inflação.

Berni afirmou que o governo se organiza para enfrentar a ameaça. Segundo ele, os saques seriam protagonizados por grupos políticos que "pretendem provocar uma explosão social".

Na semana passada, ONGs comandadas pela Bairros em Pé, exigiram de 25 supermercados na região metropolitana de Buenos Aires a entrega de comida para 8 mil famílias para que pudessem "ter um Natal e ano-novo dignos".

Ontem, os envolvidos nos planos de saquear as lojas negaram as acusações do secretário Berni, afirmando que pedem alimentos "de forma pacífica". A Bairros em Pé é uma organização de esquerda que durante anos foi aliada do governo de Cristina, até romper com a Casa Rosada. Há dois meses, em discurso em rede nacional de TV, Cristina disse acreditar que "alguns setores" estavam preparando "manobras" de desestabilização por meio de "explosões sociais" planejadas.

A Federação de Supermercados e Associações Chinesas da Argentina fez um apelo ao governo para que em dezembro forneça uma segurança reforçada aos estabelecimentos comerciais de integrantes dessa comunidade. Nos últimos 20 anos, os chineses implantaram pequenos supermercados nos bairros mais pobres da Grande Buenos Aires, evitados pelas grandes redes. Os chineses controlam quase a totalidade dos supermercados de pequeno e médio tamanho da área metropolitana de Buenos Aires. No ano passado, um comerciante chinês morreu queimado defendendo seu estabelecimento, ao qual os saqueadores haviam ateado fogo.

Na semana passada o governo Kirchner admitiu que o desemprego no país aumentou de 6,8% para 7,5% da população economicamente ativa no último ano. A cidade de Córdoba, um dos principais centros industriais, na região central da Argentina, está sendo afetada por uma onda de demissões de montadoras e fábricas de autopeças. Ali, o desemprego passou de 8,99% para 11,6%. Córdoba foi o cenário dos principais saques a estabelecimentos comerciais e residências no ano passado.

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