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Argentina quer condenar civis cúmplices da ditadura

País recorda hoje 35 anos do início do regime militar, acusado de matar e torturar 30 mil pessoas

AE, Agência Estado

24 de março de 2011 | 10h01

Os argentinos vão recordar com um feriado hoje os 35 anos do golpe militar que em 1976 deu início a uma ditadura de sete anos que torturou e assassinou mais de 30 mil civis. Nos últimos anos, dezenas de militares sentaram no banco dos réus e foram condenados pelas violações dos direitos humanos durante o regime.

 

No entanto, o governo da presidente Cristina Kirchner agora pede à Justiça que também julgue os civis que participaram da ditadura. "Não é suficiente condenar os militares. É preciso também condenar os civis que foram cúmplices", afirmou o chanceler Héctor Timerman. "É preciso condenar os civis que tiraram proveito do terrorismo de Estado em benefício próprio."

Alguns civis já estão sendo julgados, entre eles, José Martínez de Hoz, ex-ministro da Economia do ex-ditador e general Jorge Rafael Videla. Segundo Vicente Muleiro, autor do recém-lançado 1976 - O Golpe Civil, Martínez de Hoz foi "o chefe civil do golpe".

 

Um dos civis detidos, que aguardam julgamento, é o jurista Jaime Lamond Smart, secretário de governo do general Ibérico Saint-Jean, interventor da ditadura na província de Buenos Aires. No entanto, Timerman direcionou suas críticas aos jornais "La Nación" e "Clarín", os quais acusa de terem colaborado com o regime militar. "Essas pessoas não podem estar livres, caminhando pelas ruas", disse.

 

O regime implantou a ditadura mais cruel da história da América do Sul. Além dos mortos, milhares de outras pessoas foram torturadas, enquanto que mais de 300 mil partiram em exílio. Em 2006 o então presidente Néstor Kirchner decretou a data feriado nacional, com o argumento de "recordar" as vítimas do Terrorismo de Estado.

 

Segundo Timerman, os diretores de ambos jornais estiveram por trás da detenção e tortura de Lidia Papaleo de Graiver, viúva de David Graiver, dono da "Papel Prensa", a única fábrica de papel de jornal do país. Timerman alega que a viúva de Graiver foi forçada a repassar a empresa aos dois maiores jornais do país em 1976. No entanto, parentes de Graiver, também torturados pelos militares, afirmam que o governo está tergiversando a realidade, já que a venda ocorreu em novembro de 1976, enquanto que a tortura ocorreu em março de 1977.

 

Condenados 

 

Segundo a Unidade Fiscal de Coordenação e Acompanhamento por Violações aos Direitos Humanos da Promotoria Geral da República, em 2010 foram condenados 110 ex-integrantes da ditadura (principalmente militares e policiais) por crimes cometidos durante os sete anos de regime militar. Outros 112 militares teriam julgamento oral e público ao longo deste ano, segundo as estimativas do organismo.

 

Na fila de espera para futuros julgamentos existem atualmente 820 militares que estão sendo processados. As Mães e Avós da Praça de Mayo, entre outras organizações de defesa dos Direitos Humanos, realizarão ao longo do dia marchas de protesto para exigir a detenção e julgamento de ex-integrantes da ditadura que ainda estão em liberdade. A presidente Cristina Kirchner não participará dos eventos programados para este feriado. No entanto, em uma mensagem gravada previamente, recordará hoje à noite em rede nacional de TV os 35 anos do golpe.

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