Argentina quer 'destruir' carga de avião americano; EUA exigem devolução

Incidente com carga não declarada esfria ainda mais relações entre Washington e Buenos Aires

Reuters e Efe

16 de fevereiro de 2011 | 21h58

BUENOS AIRES - Criticando com contundência membros do Departamento de Estado dos EUA, o chefe do Gabinete do governo da Argentina, Aníbal Fernández, reforçou a intenção de Buenos Aires de destruir o material apreendido em um avião de Washington. A carga, segundo as autoridades argentinas, é considerada ilegal porque entrou no país sem ser declarada. Os americanos exigem sua devolução imediata.

 

No dia 10, autoridades argentinas encontraram "armas e drogas, várias doses de morfina, material para interceptar comunicações, GPSs muito sofisticados, elementos tecnológicos com códigos secretos e um baú cheio de medicamentos vencidos" em um cargueiro C17 da Força Aérea americana. Segundo Washington, tudo seria usado em um treinamento que seus militares dariam para a Polícia Federal argentina durante a visita ao país.

 

Buenos Aires, porém, alegou que os americanos não haviam declarado que entrariam no país com o material, que acabou apreendido ao chegar no Aeroporto de Ezeiza. Arturo Valenzuela, subsecretário de Estado dos EUA para a América Latina, e Frank Mora, responsável do Pentágono para a região, exigiram sua devolução. O governo americano classifica o incidente como "sério" e declarou ter ficado "perplexo e preocupado" com a situação.

 

Os últimos dias foram de negociações. "Valenzuela continua com declarações pouco felizes. Diz: ‘Havíamos conversado com o governo argentino’. Aqui não tem de se conversar nada. É necessário escrever e assinar sobre o que ingressa no país", disse ontem o chefe da Casa Civil argentino. "Mora até chamou de mentiroso nosso chanceler (Héctor Timerman) e espero que o Departamento de Defesa (americano) o obrigue a pedir desculpas", concluiu Fernández.

 

A alfândega argentina viu o incidente como uma "infração aduaneira" e não como um delito penal, informou o jornal Clarín. A presidente Cristina Kirchner estimulou a população argentina a defender a "soberania nacional". "Sabem qual é a verdadeira soberania? Defender os interesses do país", disse.

 

No final da segunda-feira, o juiz argentino Rafael Caputo decidiu que 22 funcionários da Alfândega, Administração de Remédios, Alimentos e Tecnologia Médica, Registro de Armas, Polícia Federal e Polícia de Segurança Aeroportuária da Argentina entraram na qualidade de testemunhas. Estes funcionários deverão se apresentar entre esta quinta-feira e a próxima terça, informou o Centro de Informação Judicial.

 

O incidente esfria ainda mais as relações entre Argentina e EUA, já abaladas pela decisão do presidente americano, Barack Obama, de não passar por Buenos Aires em sua viagem à América Latina, marcada para a segunda quinzena de março.

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