Argentina quer investimento brasileiro após expropriação da YPF

Ministro do Planejamento argentino se reúne em Brasília com representantes do governo nesta sexta para pedir presença maior da Petrobras no país.

Marcia Carmo, BBC

20 de abril de 2012 | 05h30

Quatro dias após o anúncio da expropriação da petrolífera Repsol-YPF, o ministro do Planejamento da Argentina, Julio de Vido, se reúne nesta sexta-feira em Brasília com representantes do governo em busca de investimentos da Petrobras no país.

A falta de investimentos foi o principal argumento usado pela presidente Cristina Kirchner para justificar, na última segunda-feira, o anúncio da expropriação de 51% da companhia.

A agenda De Vido prevê um encontro com a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, e com o ministro de Energia, Edison Lobão. Do lado argentino, a previsão é que, além de De Vido, também estejam presentes o secretário de Energia da Argentina, Daniel Cameron, e outros assessores.

O encontro foi marcado durante visita de Lobão à Buenos Aires, no início de março, quando já eram fortes as indicações de que haveria um rompimento entre o governo argentino e a Repsol (que possui 56% da YPF).

Na ocasião, a presidente convidou Lobão para uma conversa na Casa Rosada, sede da Presidência, segundo contou o ministro brasileiro, para pedir a "maior presença da Petrobras no país".

"A presidente pediu uma presença mais forte, mais intensa da Petrobras aqui (na Argentina) e presença mais forte tem que ser com investimentos", disse o ministro brasileiro.

Repsol

Durante o encontro em março foi marcada a reunião desta sexta-feira em Brasília, de acordo com assessores de ambos os países.

Os dois governos evitaram dizer, porém, que a Repsol será um dos temas da reunião. Ao mesmo tempo, em uma entrevista em Brasília, Lobão afirmou que o Brasil não tem motivos para se preocupar.

"Eu não tenho nenhuma preocupação quanto a uma possibilidade de encampação da Petrobras na Argentina. Eu e o ministro De Vido conversaremos sobre diversos interesses do Brasil e da Argentina", disse Lobão.

Segundo ele, o governo brasileiro tem uma "relação da melhor qualidade com a Argentina".

"Não há nenhum sinal de que a Argentina tente ou deseje encampar a Petrobras da Argentina, ou coisa do gênero. Dir-se-á: mas houve um episódio recente. O episódio não depende do governo federal da Argentina, e sim do governo estadual", afirmou.

Recentemente, o governo da província de Neuquén, na Patagônia, decretou o cancelamento da concessão de exploração de três campos de petróleo, um deles, chamado de "Veta Escondida", pertencente à Petrobras.

Assessores do governo neuquino disseram à BBCBrasil que "a situação está resolvida" e "já não há problemas com a Petrobras" porque, de acordo com eles, "é uma empresa que queremos na nossa província".

Modelo e parceria

Segundo analistas argentinos ouvidos pela BBC Brasil, a expectativa é de que a Petrobras não seja afetada por possíveis iniciativas de cunho nacionalista da administração de Cristina Kirchner.

Ao anunciar a expropriação da petrolífera Repsol-YPF, a presidente citou o Brasil como modelo de inspiração para a criação da "nova YPF", como a empresa vem sendo chamada.

"Em vários países do mundo, o Estado tem a maioria acionária das petrolíferas. (É o) Caso do México, da Venezuela e da Bolívia. E nós observamos o modelo do Brasil. Eu defendo a entrada da Venezuela para o Mercosul porque assim fecharíamos um arco energético", disse.

Os especialistas também observaram que o Brasil é hoje o principal destino das exportações argentinas.

"Acho pouco provável, portanto, que a Argentina compre briga com seu parceiro comercial mais importante", disse Jean Paul Prates, diretor-geral do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (CERNE) e ex-secretário de energia do Rio Grande do Norte.

Apoio

Na última segunda-feira, Cristina assinou um decreto realizando uma intervenção na Repsol-YPF e enviou um projeto de lei ao Congresso Nacional sugerindo a expropriação da companhia. A medida gerou fortes críticas do governo espanhol e de organismos internacionais, como o Banco Mundial.

"Acho que é um erro", disse o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Mas a nacionalização recebeu apoio de diferentes setores, como de opositores no Congresso, do ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, do presidente da Sociedade Rural Argentina, Hugo Biolcati, e de movimentos sociais.

A medida foi vista amplamente como uma iniciativa do governo para que o país tome as rédeas sobre o controle de seu petróleo e gás. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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